Jornada

Minha nada mole vida na Tailândia e as expectativas dos outros

Hoje o pai do Swami, fundador aqui da escola de yoga que estudo, faleceu, e Swami voou pra sua terra natal para estar com a família. Eu acabei de sair da cerimônia que a escola fez para seu pai, em que oferecemos preces para sua alma. Durante a cerimônia não pude deixar de lembrar dos meus pais, especialmente do meu pai, que deve ter mais ou menos a idade do pai do Swami. Lembrei que estou a meio mundo, literalmente dele, e que não vai ser fácil voltar em caso de alguma emergência. Graças a Deus, apesar de idosos e claro, com vários problemas de saúde por causa da idade, meus pais estão bem. Hoje anunciei, pela segunda vez (já que já tinha feito isso em dezembro) meu apartamento que está à venda. Também pela segunda vez disse que vou ficar na Tailândia, ainda sem tempo determinado (pode ser 3 meses, pode ser um ano, pode ser pra sempre. Eu não tenho essa resposta). Mas pela primeira vez conectei um fato ao outro, e acho que isso foi assustador pra algumas pessoas. Eu também sabia que, mais dia menos dia, iria enfrentar o julgamento, principalmente da família, pelas escolhas que estou fazendo. Porque as pessoas criam expectativas umas das outras, e aparentemente a expectativa que minha família tem de mim é que eu devo viver para sempre ao lado dos meus pais. Porque, se não casei, ou se não fui mandada obrigada por alguma empresa a trabalhar em outro lugar, de alguma forma as pessoas não acham justo que eu não esteja ao lado deles. Porque se a decisão de ir aprender coisas e viver minha vida e tentar ser feliz onde quer que eu esteja é inteiramente minha - eu não posso culpar mais ninguém por isso - aparentemente não é justo não estar mais lá. (mais…)

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O que aconteceu depois de um ano que chutei o balde

Quarta feira de cinzas de 2015. Depois de uma noite insone de choro e desespero, sabendo que o jeito que eu levava minha vida não me fazia mais feliz, às 7 da manhã da porta de um supermercado por abrir eu escrevi um dos mais importantes e-mails da minha vida. Foi quando decidi chutar de vez o balde, e pra isso mandei uma mensagem para o UnCollege perguntando de opções de financiamento para fazer um Gap Year - tirar um ano sabático - com eles. Eu estava às vésperas de ser demitida do trabalho (e já desconfiava disso), tinha um não-relacionamento que estava muito doído, meus colegas de apartamento já tinham decidido se mudar para outro apartamento, e eu tinha que decidir se ia ficar ou se ia embora. Depois de mandar esse e-mail, comecei a mover minha vida para uma nova direção - ainda que não soubesse exatamente que norte era esse. Alguns dias depois fui mesmo demitida (para minha alegria) e me coloquei a trabalhar para mim mesma, como contei aqui. Em um mês vendi carro, entreguei apartamento, vendi coisas, tirei passaporte, tomei vacinas, fiz check-up, providenciei procurações, e tudo mais para deixar minha vida em ordem antes de sair nesse ano de aventura. O UnCollege me aceitou como fellow e eu parti para Ilhabela no início de abril. Mas tudo começou naquela quarta-feira de cinzas de 2015. (mais…)

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Uma carta do passado

Sabe aquela lista de resoluções de ano novo? Eu parei de fazer há algum tempo. Em vez disso, há anos faço uma carta de agradecimento pelo ano que passou (mas antes que ele aconteça). "Caramba, Ana, que bagunça! Você tem umma máquina do tempo, é isso?" Sim, devo ter. Porque olha, eu acerto todo início de ano agradecendo por coisas que ainda não aconteceram, mas que são meus desejos de ano novo, por assim dizer. A ideia é exatamente abrir a carta um ano depois, e ver o que eu tinha pensado pra mim um ano atrás. É quase como fazer metas, mas de um jeito bem mais poético: é agradecer ao universo tudo que eu gostaria que ele mandasse pra mim, antes mesmo que ele mande. Bom, tem funcionado incrivelmente, olha só a carta que escrevi há exato um ano atrás e que recebi hoje pelo Dear Future Me: (mais…)

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Abraçar o lado negro da força

Há duas semanas participei de um workshop chamado Black Butterfly, por sugestão da minha amiga e praticamente mentora aqui na Tailândia, Yogita. Quem facilitou o workshop foi um israelense amigo dela, chamado Ohad: profundo conhecedor de Kabalah, Tantra e Xamanismo. É, isso tudo aí junto e misturado. Depois de uma palestra de uma hora e meia sobre o mito de Lilith e a relação disso com a repressão da sexualidade feminina, achei que a Yogita estava certa: o workshop era pra mim, já que ensinaria exatamente a lidar com esse lado que escondemos, conscientemente ou não. (mais…)

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Como você vai ao encontro do outro?

Me peguei pensando sobre as expectativas que temos em relação às outras pessoas. Como quando encontramos o outro, temos imaginada uma história de como esse encontro vai ser. Seja um breve encontro com um estranho, um reencontro com um amigo, um relacionamento familiar ou amoroso. Com que roupa você vai a esse encontro? É vestido de medo da recepção do outro ao seu pedido de encontro, seja para pedir uma informação na rua? É uma roupa de nostalgia pelos tempos bons que não voltam mais com seu amigo? É aquele trapinho de carência, esperando que a pessoa que você ama vai encher o vazio que tem em você? (mais…)

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A arte de pedir – The art of asking

Você tem costume de pedir pelas coisas que deseja? Simplesmente pedir o que você quer. Tem gente que chama isso de oração, prece ou reza, quando se pede para uma instância espiritual superior. Mas é possível também pedir pra outras pessoas, conhecidos ou estranhos. Já imaginou apenas pedir algo que você quer ou precisa e isso acontecer? Há uma famosa apresentação do TED da Amanda Palmer, chamado "Art of asking", arte de pedir. Ela conta sua experiência como "pedinte", de uma artista de rua a batedora de recordes de crowdfunding. Você se sentiria confortável na posição de "pedinte"? Nossa linguagem não tem uma conotação boa para essa palavra. Pode ser que você tenha pensado em mendigo, quando eu disse pedinte. Ou crianças de rua. Ou simplesmente associado à ideia de vagabundagem: "quem trabalha não pede, ganha com seu suor, assim sendo, quem pede não trabalha". O que não é nem de perto verdade. Que tal desconstruir essa noção sobre pedir?   [youtube https://www.youtube.com/watch?v=xMj_P_6H69g] (mais…)

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O que aconteceu quando decidi chamar 10 caras para sair

Eu tenho várias questões com autoestima e autoconfiança que preciso trabalhar em mim. A cada dia eu entendo melhor a mim mesma, me aceito e me amo mais. E para que isso acontecesse eu precisei de ajuda. Fiz terapia com diferentes psicólogos, tentei várias coisas socialmente aceitas no mundo ocidental. Elas ajudaram um pouco, mas acredito que bem superficialmente. Somente depois de entrar em contato verdadeiro comigo mesma - através do tantra - meu passado, meus traumas, medos, encarar essas coisas de frente e querer de verdade lidar com elas que estou aprendendo a ser quem sou. Uma das coisas que aprendi aqui na prática foi disciplina, e para isso me coloquei um desafio (chamamos isso na yoga de Tapas): chamar 10 caras que eu esteja interessada para sair em um mês. (mais…)

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Seguir o fluxo e ouvir seu corpo

Toda vez que alguém me pergunta aqui “por que você escolheu vir pra Tailândia?”, confesso que não sei explicar em poucas palavras. Acabo respondendo que acho que o lugar me escolheu, mais do que eu escolhi o lugar. Quando penso na sequência de acontecimentos que me trouxe até aqui, a fazer o que estou fazendo hoje, não há muito planejamento ou limites rígidos estabelecidos, o que é bem raro pra mim: sou uma pessoa que planeja. Estou em Ko Pha Ngan, uma ilha no golfo da Tailândia, já há um mês. Cheguei no país e passei duas semanas voluntariando ensinando inglês para tailandeses em um hostel em Bangkok. Tinha marcado um workaway aqui na ilha, que oferecia aulas de yoga além de hospedagem. Foi um dos poucos lugares que vi aqui na Tailândia que oferecia yoga no período que eu estaria aqui. E eu queria praticar por vários motivos, mas o principal deles é que tinha marcado um retiro de meditação Vipassana: 10 dias de silêncio absoluto meditando 10 horas por dia. (mais…)

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Conto de uma calça rasgada

Era o meio de uma aula de yoga. Cinquenta pessoas no hall. Eu tinha escolhido uma calça branca estampada em tons de preto, marrom e amarelo, cheia de elefantes e flores. Havia comprado essa calça há cerca de uma semana. Tinha sido barata, cerca de vinte reais, era de um tecido leve de algodão, parecido com uma canga, perfeito para o clima da Tailândia, sempre acima de trinta graus. Estando a legging suja, havia escolhido essa calça para fazer a aula. Era o terceiro dia. Tinha chegado em companhia de um lindo alemão que também fazia o curso, e ele gostava de se posicionar na primeira fileira do enorme hall. Eu costumava ficar no fundo, um misto de chegar bem na hora da aula com não querer chamar muita atenção. Como nesse dia tinha chegado cedo, resolvi colocar o tapete de yoga ao lado do dele. (mais…)

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Conhecer e aceitar nossos limites

Tenho dificuldade em conhecer e aceitar meus limites, físicos, mentais e emocionais. Muito provavelmente é essa sabedoria que os defensores do autoconhecimento tanto pregam. Você conhece os seus? Sei que em alguns casos sou boa de perceber os meus. Bebida alcóolica por exemplo, sou excelente em saber quando devo parar. Se passo da conta sei que passei, e foi uma escolha consciente. Mas esse padrão de autoconhecimento não se repete em várias outras situações. As emocionais e físicas costumam ser as mais desafiantes pra mim. Se algo que alguém com quem me relaciono, seja amigos, família, trabalho ou mesmo relacionamento amoroso, faz algo que me incomoda, eu tento não reagir, não confrontar. Por vezes o resultado é pior do que esperado, porque na maior parte das vezes não consigo simplesmente deixar passar. Esse incômodo cresce até o ponto de virar de um tamanho desnecessário, num lugar que soluções mais brandas já não servem. Já identifiquei que isso tem a ver com minha necessidade de aceitação, mas ter percebido isso não fez com que eu consiga dizer sempre, logo de cara, algo que me incomoda. Eu tento ser compreensiva, ter empatia, acolher. Mas parece que antes de fazer isso com o outro, eu preciso fazer isso comigo mesma. Talvez seja por isso que eu não tenha sucesso em deixar passar o que me incomoda. (mais…)

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