Jornada

A coragem de largar tudo

O Ainda Que Tardia completou três anos. Um sonho de liberdade que nasceu num rascunho de papel num carnaval em 2014, virou blog em abril do mesmo ano, virou projeto de viagem de volta ao mundo em novembro de 2014 e começou a ser posto em prática em abril de 2015, quando larguei minha cidade para trás e resolvi botar o pé no mundo pra explorar o que viria a ser essa palavra tão cobiçada. Ter a coragem de romper com seu programa preestabelecido de vida e carreira não parece coisa fácil para quem ainda não fez. E, paradoxalmente, é ao mesmo tempo mais fácil e mais difícil do que se imagina. Quando entreguei meu apartamento, vendi meu carro, saí do emprego e fui fazer um Gap Year no Uncollege em Ilhabela (um programa de um ano sabático de aprendizado) não imaginei que ouviria acusações de pessoas muito próximas a mim. Não tinha ideia do que liberdade realmente significava. E do tanto que teria que aprender a me aceitar, me amar, e lidar com o julgamento alheio. Num resumo rápido, me formei publicitária e tinha logo terminado uma pós graduação quando percebi que esse sonho de carreira de sucesso não me servia mais (pelo menos não no formato padrão que nos vendem). De repente vi que minha vida se resumia ao trabalho e que minha saúde se esvaía, bem no início dos meus 30. Obesidade, enxaqueca e depressão já tinham se tornado velhas conhecidas e eu lidava com elas como todo mundo lida: remédios e mais remédios, terapia, plano de saúde, crises de lombalgia aqui e ali, enfia-se mais uma injeção e bora trabalhar. Numa tarde de setembro olhei meus esqueletos no armário e, dentre traumas de infância e história pessoal, descobri que precisava mesmo me libertar daquilo tudo. (mais…)

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Não é com você, é comigo

Você já deve ter escutado essa frase, provavelmente em um término de relacionamento: "Não é você, sou eu...". Eu achava que fosse uma mera desculpa (e para algumas pessoas talvez seja), mas hoje entendo a verdade que essa expressão pode carregar. Quando assumimos a responsabilidade da autonomia das nossas ações e escolhas, nada mais se torna culpa do outro. Nada que a outra pessoa disser ou fizer, poderá ser usado como justificativa para nossos atos ou escolhas. E isso é altamente assustador para a maioria de nós. Quando comecei esse blog e a proposta de investigar a liberdade, logo uma amiga me apontou na direção de Jean Paul Sartre. Sartre afirma que o homem aliena-se (ou seja, abre mão) da própria liberdade por não suportar o peso das próprias escolhas. Quantas vezes fazemos isso diariamente? Estamos chateados porque alguém fez algo conosco, ou algo aconteceu com a gente. Ou seja: atribuímos a algo externo o poder de mudar algo em nós. Na maior parte das vezes não percebemos que a nossa reação a um fato que acontece conosco nada tem a ver com o fato em si, e que temos escolha sobre nossa ação ou re-ação. E que todo o poder sobre nossa mudança, ou não-mudança está em nós mesmos. (mais…)

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A volta de uma viagem transformadora

Fazer uma viagem transformadora é algo maravilhoso. Muita gente exalta as vantagens de se passar um tempo fora do país, de sua própria cultura – não como turismo, mas morando em outro lugar, vivenciando outras culturas. Já há algum tempo vemos um movimento de pessoas que procuram fazer viagens longas – seis meses, um ano ou mais, morando fora para conhecer, estudar ou trabalhar em outra realidade. As histórias que vemos mostram como essas experiências fora do contexto social e cultural que fomos criados provocam mudanças em quem experimenta: de aparência, corte de cabelo, peso, roupas, a outras mais profundas, mas difíceis de captar com um primeiro olhar ou primeira conversa. Falamos dessas viagens e como elas podem transformar a vida de alguém, mas esquecemos de falar da volta de uma viagem transformadora, que pode ser tão ou mais difícil que os desafios enfrentados na viagem, e trazer tantos aprendizados quanto. Eu morei quase dez meses na Tailândia. A princípio seria uma viagem de três meses, mas quando estava próximo do fim, resolvi ficar. Sabia o quão valiosas estavam sendo para mim para mim os aprendizados que eu estava vivenciando. Mudei de dieta – quase exclusivamente vegetariana agora, uma mudança enorme para uma carnívora convicta. Mudei de crenças, abarcando uma espiritualidade não-religiosa. Mudei de hábitos diários, incluindo yoga e meditação quase diariamente. Mudei de peso e aparência, reflexo de estar me amando e me cuidando melhor. Mas o mais importante: adquiri um novo kit de ferramentas para me relacionar comigo e com os outros. (mais…)

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Jornada

Conto de regresso

Parada do ônibus. Alguma cidadezinha de interior que não me preocupei em identificar, já sabia o mais importante sobre ela: encravada no mar de montanhas do sul de Minas Gerais. Depois de mas de 60 horas de viagem voltando para o Brasil, se existia um pedido apenas que eu poderia fazer a Deus, era: pão de queijo com linguiça. 252 Se você nunca viajou de carro pelo interior de Minas, não tem noção concreta do que estou falando: o pão de queijo mineiro, desses de lanchonete de beira de estrada, combinado com aquela linguiça caseira feita na chapa, mineiramente levemente apimentada, é algo que pertence aos manjares dos panteões divinos. Se existe algo nessa vida pela qual vale a pena não ser vegetariano ou vegano é a linguiça caseira mineira e o queijo minas frescal. Ao entrar logo perguntei ao senhorzinho da porta que distribuía os papéis de controle de consumo se eu conseguiria encontrar tal iguaria naquele estabelecimento. Ele me apontou na direção do balcão, um chapeiro simpático, cara e sorriso de mineiro na casa dos 40 anos me perguntou o que eu queria. Pedi o tão desejado, sonhado há nove meses longe do Brasil, "pão-dgi-queij com linguiça", despertando meu mineirês adormecido. Ele apontou um pão francês com mortadela de Bragança que era visualizado num cartaz. Sul de Minas tem hora que parece São Paulo. Neguei, disse que o que procurava era o legítimo lanche mineiro. Ele entendeu na hora. Perguntei da origem da linguiça: "é caseira?" Ao que ele me respondeu no melhor mineirês sobre a qualidade da mesma: "é boa". Saiu para preparar, mas não sem antes se voltar pra mim e acrescentar: "com queijo?" Oras, faça-me o favor, que pergunta mais descabida "macaco-quer-banana". Sorri de orelha a orelha feliz com a lembrança do moço (em Minas não importa a idade, todo mundo é moço ou moça). Perguntei pela qualidade: "daqueles bem mineiros, né, moço, frescal e tudo". Ele pra evitar quaisquer mal entendidos na comunicação, buscou o famoso em questão e me exibiu, orgulhoso e satisfeito: "olha aqui". (mais…)

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Dicas de Viagem

Dia internacional da Yoga na Tailândia

A primeira vez na vida que fiz uma aula de yoga foi há um ano atrás. Eu ainda não sabia, mas seria algo que iria ajudar a mudar minha vida. Depois da primeira aula eu continuei testando aulas aqui e ali, estilos e professores diferentes, mas não tinha me comprometido ainda com isso. Isso mudou quando ouvi a palestra do Swami no primeiro dia do curso intensivo de um mês de yoga aqui da Agama Yoga, que fica em Ko Phangan, na Tailândia. O resto da história eu já contei por aqui. E a escola resolveu participar do Dia Internacional da Yoga, oferecendo várias atividades super legais, todas de graça (comida inclusa!) durante um dia inteiro, no dia 21 de junho. IYD-international-yoga-day-agama (mais…)

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Jornada

O que você deixa de fora do seu currículo?

Eu sou muito boa em fazer currículos. Lá com meus 18 anos, sem experiência e apenas com alguns cursos profissionalizantes para tentar conseguir um emprego, tive que aprender a ser criativa para pelo menos ser chamada para entrevistas. E olha, fiz muitos currículos e muitas entrevistas. Provavelmente foi isso que me ajudou a desenvolver essa habilidade, e hoje se você olha minha conta no Linkedin dá pra ver que eu acabei caminhando bem nessa estrada. Mas há cerca de um ano resolvi fazer diferente e publicar um descurrículo. De repende me dei conta que desde os meus 18 anos eu venho acumulando toda sorte de experiências variadas que teoricamente não servem para o mercado de trabalho. Bom, teoricamente, apenas. Porque o acúmulo dessas experiências, o prazer que elas me proporcionaram e as outras habilidades que essas experiências me fizeram aprender, servem e muito para qualquer tipo de trabalho que eu resolva fazer. Ele já está desatualizado, porque no último ano tanta coisa incrível me aconteceu! (mais…)

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Jornada

Lista de conquistas – por que fazer uma

Eu às vezes tenho a sensação que poderia estar fazendo as coisas mais rápido. Você também tem essa sensação? Por vezes me pego pensando que devia me esforçar mais, ser mais disciplinada, e às vezes isso vai para o extremo de me culpar por não ter feito algo. Como culpa é um sentimento inútil, às vezes é preciso me lembrar de que estou fazendo muito. Um dos jeitos que consegui diminuir essa sensação de que "não tenho feito nada", é colocar tudo que faço na minha agenda do Google. Assim eu sei quantas horas tenho gasto com trabalho, yoga, socializar, limpeza de casa, organização e afins. Assim tenho contado o tempo que gasto comigo e com os outros. E o tempo que vendo em troca de dinheiro pra viver e fazer o que gosto. (mais…)

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De repente 33 – como virei minha vida do avesso

Não se enganem pela foto em destaque do post. Esse não é mais um post a la instagrammer fitness que perdeu 20kg graças à "frutinha milagrosa-cross fit-no pain no gain" lifestyle. Espero que seus olhos sejam capazes de ver para além das gorduras a menos, mas olhar nos olhos dessa pessoa que está nas três fotos. A primeira delas é uma pessoa feliz? Tranquila? Em paz? Que se ama? E a última? Eu iniciei meu ano de 2015 no centro de uma grande mandala cravada no chão do lindo salão das Thermas do Grande Hotel de Araxá. Sentada (ou pelo menos tentando) de pernas cruzadas, imitando uma posição meditativa. Já havia começado a meditar há cerca de um ano naquela época, mas sempre intermitentemente. Ainda assim, descobri o quão poderoso pode ser olhar pra dentro de si mesma. Naquela foto, naquele chão, meus desejos de ano novo eram de conectar de novo comigo mesma, há tantos anos perdida de mim. [caption id="attachment_940" align="aligncenter" width="736"]Não estava nem no centro de mim nem no centro da mandala. ha. Não estava nem no centro de mim nem no centro da mandala. ha.[/caption] (mais…)

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Minha nada mole vida na Tailândia e as expectativas dos outros

Hoje o pai do Swami, fundador aqui da escola de yoga que estudo, faleceu, e Swami voou pra sua terra natal para estar com a família. Eu acabei de sair da cerimônia que a escola fez para seu pai, em que oferecemos preces para sua alma. Durante a cerimônia não pude deixar de lembrar dos meus pais, especialmente do meu pai, que deve ter mais ou menos a idade do pai do Swami. Lembrei que estou a meio mundo, literalmente dele, e que não vai ser fácil voltar em caso de alguma emergência. Graças a Deus, apesar de idosos e claro, com vários problemas de saúde por causa da idade, meus pais estão bem. Hoje anunciei, pela segunda vez (já que já tinha feito isso em dezembro) meu apartamento que está à venda. Também pela segunda vez disse que vou ficar na Tailândia, ainda sem tempo determinado (pode ser 3 meses, pode ser um ano, pode ser pra sempre. Eu não tenho essa resposta). Mas pela primeira vez conectei um fato ao outro, e acho que isso foi assustador pra algumas pessoas. Eu também sabia que, mais dia menos dia, iria enfrentar o julgamento, principalmente da família, pelas escolhas que estou fazendo. Porque as pessoas criam expectativas umas das outras, e aparentemente a expectativa que minha família tem de mim é que eu devo viver para sempre ao lado dos meus pais. Porque, se não casei, ou se não fui mandada obrigada por alguma empresa a trabalhar em outro lugar, de alguma forma as pessoas não acham justo que eu não esteja ao lado deles. Porque se a decisão de ir aprender coisas e viver minha vida e tentar ser feliz onde quer que eu esteja é inteiramente minha - eu não posso culpar mais ninguém por isso - aparentemente não é justo não estar mais lá. (mais…)

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