O filósofo e educador Mário Sérgio Cortella usou certa vez a seguinte frase para definir o atual paradigma educacional em que nos encontramos: “Temos uma metodologia do século XIX, professores do século XX e alunos do século XXI”. Em um mundo com acesso virtualmente ilimitado à informação, em que não há mais um detentor sagrado do conhecimento, o mestre, e alunos incautos que não poderiam obter conhecimento se não tivessem acesso a esse sujeito ou à estrutura de bibliotecas e conhecimento fornecida por uma instituição, e é plausível que algumas pessoas comecem a questionar que esse seja ainda não apenas o modelo vigente mais quase o único possível. Até muito recentemente.

Alguns de vocês já devem ter visto essa palestra do Ted que mostra esse menino que hackeou a própria educação. Ele tinha alguns questionamentos a respeito da educação tradicional e resolveu se tornar protagonista do próprio aprendizado, e escolher o que e como gostaria de aprender. E história dele é inspiradora, e aponta novos rumos num novo mundo.

Não apenas ele, mas parece estar havendo um despertar sobre esse assunto: desescolarização, novos processos didáticos, se tornar protagonista da própria aprendizagem. Entendimento que educação não tem a ver apenas com aquisição de novos conhecimentos teóricos de pouca aplicação prática, mas de vivências diárias; que aprendizado é algo mais humano e holístico que números, fórmulas, sintaxes e mapas. Que aprender é troca, e não hierarquia: que professor, mentor ou mestre é apenas um nome para um facilitador dessas trocas.

Tive a felicidade de um encontro serendipitoso esse mês, em que participei de um Círculo de Doutorandos Informais aqui em BH promovido pelo Alex Bretas, que também tomou as rédeas da própria educação e escolheu financiar seu doutorado informal por crowdfunding. Ele facilita encontros e tem estudado, pesquisado, ensinado e facilitado trocas através do Educação Fora da Caixa, nome do seu projeto que vai virar um livro.

Tenho mais dois amigos que recentemente também escolheram aprender de outras formas. Um escolheu fazer um curso chamado “Sustainable Business Academy” em uma escola no Lost Valley, no Oregon, EUA, e outra escolheu aprender empreendedorismo em um Boot Camp em uma imersão em dois meses no Chile, chamada Exosphere.

Mas pra fazer isso nem precisa ir longe: aqui no Brasil mesmo já temos excelentes opções. Em BH, a Órbita, que já foi citada por aqui mas eu ainda não entendia a proposta, é também um projeto de desescolarização. Os orientadores (chamados de copilotos) e os orientados (chamados de pilotos) aprendem juntos, e eles estão com inscrições abertas nesse momento. Ainda em BH, tem uma filial da Perestroika, escola de criatividade que reinventa o jeito de dar cursos e está chamando todo mundo para co-criar A Alfaiataria, o espaço de aprendizagem deles por aqui. A Flag, em SP, um grupo de empresas de inovação disruptiva chama as pessoas a participarem de cursos que transformam a forma de ver as coisas, como o Translators of Disruption, que eu tive a felicidade de participar em novembro do ano passado.

Além disso há quem se dedique ainda mais a processos holísticos do aprendizado: já existe no Brasil a The School of Life, que trata de temas geralmente negligenciados pelas escolas. Amor, compaixão, reflexões sobre a vida, sobre o outro, sobre as relações, sobre o mundo. E principalmente sobre si mesmo.

Eu escolhi fazer um programa chamado Gap Year, da Uncollege Brasil.

Embarco nessa empreitada dia 12/04/2015 e espero contar tudo que vai acontecer e o que vou aprender por aqui. Acho que é o Ainda Que Tardia sendo colocado em prática, de um jeito diferente daquele que eu tinha planejado a princípio, e completamente sem expectativas, já que não faço ideia nem em que lugar do mundo vou parar depois dos três primeiros meses em Ilhabela. O que me comprometo é ser fiel ao meu desejo de aprender curiosamente, sempre. Minha primeira resolução é tentar fazer mais vídeos, que tal? 😉

Algumas coisas que o Lucas Coelho, co-fundador da Uncollege Brasil diz que me motivam a fazer esse programa:

Trilha sonora do post: Móveis Coloniais de Acaju, Campo de Batalha

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