Você tem costume de pedir pelas coisas que deseja? Simplesmente pedir o que você quer. Tem gente que chama isso de oração, prece ou reza, quando se pede para uma instância espiritual superior. Mas é possível também pedir pra outras pessoas, conhecidos ou estranhos. Já imaginou apenas pedir algo que você quer ou precisa e isso acontecer?
Há uma famosa apresentação do TED da Amanda Palmer, chamado “Art of asking”, arte de pedir. Ela conta sua experiência como “pedinte”, de uma artista de rua a batedora de recordes de crowdfunding. Você se sentiria confortável na posição de “pedinte”?

Nossa linguagem não tem uma conotação boa para essa palavra. Pode ser que você tenha pensado em mendigo, quando eu disse pedinte. Ou crianças de rua. Ou simplesmente associado à ideia de vagabundagem: “quem trabalha não pede, ganha com seu suor, assim sendo, quem pede não trabalha”. O que não é nem de perto verdade. Que tal desconstruir essa noção sobre pedir?

 

Quando Amanda Palmer e eu falamos sobre pedir, há ingredientes que precisam haver nessa receita para que o pedido funcione, seja atendido: humildade, vulnerabilidade, honestidade, confiança. Sentimentos e atitudes aterrorizantes para a maior parte de nós. Eu resolvi aprender a pedir, quando resolvi ficar aqui na Tailândia, e olha o que está acontecendo:

Clica na imagem para me ajudar na minha vaquinha!

Clica na imagem para me ajudar na minha vaquinha!

Tem gente que pensa que pedir ajuda de alguém é se humilhar. E é sim, mas de novo, corrompemos o sentido dessa palavra. Se humilhar é um ato lindo e digno, e não o contrário. Quando reconhecemos que precisamos do outro para algo, reconhecemos que existe conexão entre as pessoas. Que somos um, e que não somos autossuficientes (como muitos gostam de pensar). Eu, uma mulher forte e independente que me criei praticamente sozinha (assim eu acreditava), tenho aprendido a reconhecer essa conexão todos os dias. Tenho aprendido humildade.

O próximo ato e sentimento ligado ao pedido é a vulnerabilidade. Quando pedimos, nos colocamos em um lugar vulnerável. É difícil ouvir “não”. É difícil ser ignorado. É difícil ser julgado. E podemos passar por todas essas situações quando pedimos algo a alguém. E lidar com a rejeição, julgamento, medo, é algo que normalmente tentamos evitar a todo custo. Em vão. São lições valiosíssimas que deixamos de aprender quando aceitamos o enfrentamento desses medos. Vai ter gente mandando você ir “capinar um lote”. Vai ter gente que vai fingir que não viu. Vai ter gente que vai dizer não posso/não quero. E tudo bem. Você vai sobreviver, assim como eu tenho sobrevivido. E melhor, você vai ter tido a oportunidade de aprender a lidar com isso. E quando você não pede, 100% das vezes não vai conseguir. Quando você pede, pelo menos 50% das vezes alguém vai dizer sim. Eu diria que é um ótimo retorno sobre o investimento.

A outra parte sobre o ato de pedir, é a honestidade. Ser claro, aberto, honesto a respeito do seu pedido é fundamental para que quem doa se sinta motivado a fazê-lo. Explique o seu propósito. O que fez com que você estivesse na situação de precisar de ajuda. Ou o que você pode oferecer em troca. Essas todas podem ser coisas extremamente simples, como um “Oi, meu pé está machucado e está difícil de andar, você pode trazer uma quentinha de almoço pra mim?” ou um “Me ajuda a pagar esses cursos que prometo compartilhar com vocês o que eu aprender”.

 

O último aspecto, que está intimamente ligado ao anterior, é a confiança. Para que você receba o que está pedindo, você precisa confiar no outro e ele em você. Estamos num mundo de pessoas desconfiadas. Porque tem gente que mente, que rouba, que é mal intencionado. E infelizmente às vezes escolhemos acreditar no lado ruim das pessoas em vez de acreditar que elas podem escolher melhor. Todos temos o lado negro e o lado iluminado em nós. Às vezes tudo que o outro precisa para escolher seu melhor lado é que alguém confie nele. E às vezes tudo o que precisamos fazer é apenas desapegar do que o outro vai fazer com a ajuda que demos. Porque o seu ato você controla, mas nunca controla o ato do outro. E no fim das contas, o que ele vai fazer com aquilo que você fez, é algo que vai impactar a vida dele, não a sua. Eu sei, é difícil, você se sente responsável ou quer ter certeza de que é “por uma boa causa”. Eu gosto de pensar que a melhor causa é simplesmente ajudar quem pede sem pedir nada em troca. Nem satisfação. Mas ainda assim, como as pessoas esperam isso, e se você puder ou se sentir confortável em fazer, preste contas do que será feito daquela ajuda. Isso também ajuda quem doa a aumentar o nível de credibilidade em pedidos.

Além de todos esses aspectos ligados a pedir a outras pessoas, que são facilmente relacionados por causa-consquência e por isso fica fácil da  gente entender, existem outras “coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”. Você pode escolher acreditar nelas ou não. Vou só contar o que tem acontecido comigo quando resolvi me render ao acaso e simplesmente pedir que as coisas acontecessem da melhor forma para mim.

Eu cancelei minha passagem de volta para o Brasil em 07/12, sem qualquer restituição da companhia aérea, já que era uma passagem promocional. Quando desliguei o telefone, chorei e tive náuseas pelo resto do dia. De puro pavor de ter feito a coisa mais louca da minha vida. Minha conta no momento estava negativa, tenho uma pequena dívida de um empréstimo que peguei para pagar parte da viagem, não tinha um emprego fixo, por assim dizer (estou trabalhando 2h por dia online, mas isso é uma renda que não dá nem pra comer o mês inteiro aqui). Precisaria fazer um visa run na mesma semana, para o qual eu não tinha dinheiro, e ainda precisava morar e comer aqui, sem contar nos cursos que quero fazer.

Fui ao fundador da escola que quero fazer os cursos logo antes de tomar a decisão de ficar. Ele disse que se eu decidisse por isso, que ele enxergava potencial em mim e iria me ajudar. Depois disso tudo conspirou a meu favor e eu consegui um trabalho temporário na própria escola, e ainda ganhei bolsa para fazer mais um nível de yoga e um retiro de fim de ano. Ontem fiz uma entrevista com o novo gerente de marketing da escola e pode ser que eu consiga algo mais fixo pro ano que vem. Mas minha conta continua negativa e eu ainda tenho que pagar o lugar que consegui negociar um preço incrível pelos 9 meses que pretendo estar aqui.

O que a Ana está aprendendo na Tailândia

Olha lá no site da escola: isso tudo aí custa mais de 9 mil dólares. Que eu não tenho.

Mesmo com o cenário positivo, ainda falta muito e eu continuo precisando de ajuda. Mas eu continuo pedindo e ela continua vindo. E eu acredito que ela não vai parar, enquanto eu precisar dela. E melhor ainda do que conseguir o que tenho pedido, tenho aprendido a pedir. A ser humilde, ser vulnerável, ser honesta, e confiar.

(Visited 40 times, 1 visits today)