Fazer uma viagem transformadora é algo maravilhoso. Muita gente exalta as vantagens de se passar um tempo fora do país, de sua própria cultura – não como turismo, mas morando em outro lugar, vivenciando outras culturas. Já há algum tempo vemos um movimento de pessoas que procuram fazer viagens longas – seis meses, um ano ou mais, morando fora para conhecer, estudar ou trabalhar em outra realidade. As histórias que vemos mostram como essas experiências fora do contexto social e cultural que fomos criados provocam mudanças em quem experimenta: de aparência, corte de cabelo, peso, roupas, a outras mais profundas, mas difíceis de captar com um primeiro olhar ou primeira conversa. Falamos dessas viagens e como elas podem transformar a vida de alguém, mas esquecemos de falar da volta de uma viagem transformadora, que pode ser tão ou mais difícil que os desafios enfrentados na viagem, e trazer tantos aprendizados quanto.

Eu morei quase dez meses na Tailândia. A princípio seria uma viagem de três meses, mas quando estava próximo do fim, resolvi ficar. Sabia o quão valiosas estavam sendo para mim para mim os aprendizados que eu estava vivenciando. Mudei de dieta – quase exclusivamente vegetariana agora, uma mudança enorme para uma carnívora convicta. Mudei de crenças, abarcando uma espiritualidade não-religiosa. Mudei de hábitos diários, incluindo yoga e meditação quase diariamente. Mudei de peso e aparência, reflexo de estar me amando e me cuidando melhor. Mas o mais importante: adquiri um novo kit de ferramentas para me relacionar comigo e com os outros.

Tive que voltar às pressas para o Brasil em função de uma piora de saúde do meu pai, e apesar de essa ter sido minha escolha, não era meu desejo. Lidar com esse conflito interno e com o luto de encontrar meu pai em um estado bastante debilitado de saúde são um acréscimo ao intenso choque cultural que tenho vivido desde que cheguei. É curioso notar a reação das pessoas a esse novo – e velho – eu, lidar com as expectativas de familiares e amigos. Muitas vezes é doloroso, por que também havia minhas expectativas quanto a como seria esse meu retorno, e como seria recebida pelas pessoas. Várias coisas da minha jornada eu já havia partilhado no blog, questões esparsas das minhas reflexões  e aprendizados pessoais, meu desejo de compartilhar que outro sistema de vida é possível. Essa semi-exposição pode ter dado a impressão de que as pessoas estavam acompanhando de perto minhas mudanças – o que é longe de ser verdade. Mais ainda, podem ter dado a impressão de que voltaria uma versão melhorada de mim – e uma melhora do ponto de vista do que outras pessoas enxergam como meus defeitos.

Retornei sim uma versão melhorada de mim, mas esse paradigma de melhora é interno: há diversos pontos em mim que mudei e entendo que sejam para melhor segundo a minha perspectiva. Mas seria ingênuo de minha parte pensar que seria eu outra pessoa: que conseguiria, por exemplo, usar imediatamente todas as ferramentas que aprendi em Ko Phangan nesse contexto daqui. Percebi que os padrões que eu usava de relacionamento aqui podem não ser os melhores, mas eram funcionais para esse ambiente. Era durona e pragmática, e por mais que em vários aspectos isso me fizesse mal, funcionava para o ambiente daqui, violento em vários aspectos emocionais. Meu velho jeito de me comunicar e me relacionar podia não ser o mais louvável, mas funcionava do ponto de vista prático, porque em algum grau me mantinha protegida.

Quando retornei, meu conjunto de ferramentas emocionais havia mudado. Aprendi a me comunicar a partir da vulnerabilidade, e isso funcionava bem no ambiente que vivia, com as pessoas que vivia na Tailândia. Aqui, partir da vulnerabilidade na comunicação não funciona tão bem quanto lá. Em vez de um ambiente acolhedor de diferenças, de empatia e comunicação não-violenta, o ambiente que encontrei não sabe lidar com esse tipo de comunicação ainda. E mais: meus próprios medos, expectativas e padrões internos foram desafiados pelo retorno ao ambiente em que fui criada: subconscientemente velhos padrões se manifestaram, gerando com que minha comunicação também não fosse adequada. Meus novos valores colidiram com minha realidade antiga e minha reação foi de julgamento, ainda que uma reação subconsciente.

O que percebi é que eu não queria usar meu antigo conjunto de ferramentas (como eu me comunicava, como me relacionava), mas que o novo conjunto, adquirido na viagem, também não funcionava aqui. Entendi e aceitei que, ainda que eu não queira usar meus antigos padrões, eles existiam por um motivo – para me fazer sobreviver nesse ambiente. Entendi que por mais que eu goste mais do conjunto de valores que adquiri fora, eles não vão funcionar para a maior parte dos meus relacionamentos antigos. Descobrir pessoas do meu convívio com as quais esses novos padrões funcionam, e entender um novo sistema que funcione para os outros relacionamentos que tenho (e que me são caros), parece ser o desafio do momento. É um sentimento estranho, quase que uma nova adolescência, em que a inadequação de não pertencer mais a um grupo existe, embora ainda não façamos parte de outro. E a aceitação desse novo momento de aprendizado também é fundamental para o crescimento. Mais uma vez o mantra aceitação – perdão – amor – celebração é o que vai auxiliar a superação desse desafio que é a volta para a antiga casa.

Adendo: esse texto em inglês fala sobre esses desafios de volta para a casa depois de uma viagem, embora não aponte soluções ou dê alternativas. O que tenho feito para lidar com minhas dificuldades atuais é usar yoga, meditação e observação dos fatos para compreender na minha perspectiva como posso lidar com essa realidade. Adoriaria ouvir sugestões de ferramentas que podem ajudar nesse processo de retorno, comente se você souber de alguma.  🙂


(Visited 42 times, 1 visits today)