Há duas semanas participei de um workshop chamado Black Butterfly, por sugestão da minha amiga e praticamente mentora aqui na Tailândia, Yogita. Quem facilitou o workshop foi um israelense amigo dela, chamado Ohad: profundo conhecedor de Kabalah, Tantra e Xamanismo. É, isso tudo aí junto e misturado. Depois de uma palestra de uma hora e meia sobre o mito de Lilith e a relação disso com a repressão da sexualidade feminina, achei que a Yogita estava certa: o workshop era pra mim, já que ensinaria exatamente a lidar com esse lado que escondemos, conscientemente ou não.

Ao final da palestra Ohad conduziu uma jornada xamânica, sem uso de substâncias psicoativas, apenas meditação guiada. Durante essa jornada tive contato com um trauma do passado que eu achava já bem resolvido, mas parece que não estava totalmente. Me vi frente a frente com meu agressor, de novo. E pela primeira vez consegui realmente enxergá-lo como um ser humano, que também tem uma história, que também pode ter sofrido abuso. E, apesar de abalada com o inesperado e indesejado encontro, me veio um sentimento de perdão.

Decidi então fazer o workshop, já que em apenas uma palestra e em uma jornada de 15 minutos esse sujeito tinha conseguido mexer tão profundamente comigo. Os dois dias do workshop e a semana que se seguiu foram os dias mais intensos da minha vida. E transformadores também.

Com frequência confundimos lado negro, sombra e mal. Em inglês, “dark”, é o oposto de “light”, que tanto pode significar “luz” quanto “leve”. Sombra é o oposto de persona, que é aquilo que queremos mostrar de nós para os outros. Tudo mais que não queremos que os outros saibam, fica na sombra. E mal, ou ruim, é um ato que alguém pratica desejando que quem recebe fique incomodado. Perceba: mal é então um conceito relativo, já que, se o sujeito que receber não se afetar negativamente com o ato, não houve mal causado.

Num exemplo bobo: digamos que alguém não gosta de você e quer te causar mal mandando água gelada, cheia de presão com uma mangueira, nas suas costas, com o objetivo de te causar incômodo. Mas digamos que você esteja sentido muito calor, e um pouco de dor nas costas, e que quando recebeu essa ducha gelada até agradeceu quem a mandou. O poder de decidir se algo que nos acontece é bom ou ruim está unicamente em nós. A história mais clássica a respeito disso é do fazendeiro e o cavalo, em que o fazendeiro não julgava o que acontecia com ele como sendo bom ou ruim: é apenas algo que aconteceu com ele.

Que poder todos esses conceitos contém! Então significa que se tenho algo “pesado”, “negro” na minha história, nos meus sentimentos, nos meus comportamentos, não necessariamente isso é algo ruim. Assim sendo, eu não preciso colocar isso na sombra, ter vergonha de que as pessoas saibam: é apenas o que é. Para que existe o leve, o pesado necessariamente existe. E, qualquer coisa que alguém faça comigo, o ato em si não é bom ou ruim: como eu vou decidir que esse ato vai me afetar é que faz a diferença.

Tá, talvez vocês já tenham lido isso em milhões de blogs e livros de auto-ajuda e frases melosas nos powerpoints animados que sua tia manda. Eu também já tinha lido e ouvido isso várias vezes. Mas eu experimentei tudo isso no workshop. E essa experiência fez com que eu sentisse esses conceitos. E pra mim sempre tem essa diferença: eu só aprendo de verdade quando sinto algo.

Esse workshop me fez fazer as pazes com meu lado negro. Reconhecer o que aconteceu de pesado comigo só me deu mais poder para que eu decida o que quero fazer com qualquer coisa que aconteça comigo. E me ensinou a não ficar jogando tanto na sombra as coisas a respeito de mim. Sou o que sou, é esse material que o universo me deu para trabalhar. Ser capaz de abraçar o lado negro me faz mais inteira, mais completa. E mais feliz.

Categorias: Jornada

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