Me peguei pensando sobre as expectativas que temos em relação às outras pessoas. Como quando encontramos o outro, temos imaginada uma história de como esse encontro vai ser. Seja um breve encontro com um estranho, um reencontro com um amigo, um relacionamento familiar ou amoroso. Com que roupa você vai a esse encontro?

É vestido de medo da recepção do outro ao seu pedido de encontro, seja para pedir uma informação na rua? É uma roupa de nostalgia pelos tempos bons que não voltam mais com seu amigo? É aquele trapinho de carência, esperando que a pessoa que você ama vai encher o vazio que tem em você?

Essa história imaginada, essa expectativa criada de como será nosso encontro com o outro parte de apenas um ponto de vista, o nosso. Assim sendo, é uma história manca: se é uma história do encontro de duas pessoas, onde está a outra metade dela? A outra parte reside no outro, que também pode ter expectativas sobre esse encontro. Que está numa linha do tempo diferente da nossa, vivendo outras coisas, tendo outras necessidades, talvez outros medos.

Imagine por exemplo que você liga para seu namorado(a), cheio de saudades, com vontade de trocar mensagens de amor. Você pode ter acabado de ver um filme romântico e talvez ele tenha te lembrado de como é bom amar outra pessoa. Agora imagine que ele(ou ela) teve um dia atribulado, cheio de discussões e trabalho, e que inclusive começa a se sentir meio doente. Percebe como são duas linhas do tempo completamente opostas? E que se expectativas são criadas de como o outro tem que reagir ao encontro (exemplo, esperando que ele/ela esteja super no clima para também dizer coisas românticas), está criada a receita da frustração?

Por vezes nos esquecemos disso. Se relacionar com pessoas talvez não seria tão difícil, se conseguíssemos tirar as expectativas desse encontro. Isso vai desde “como eu gostaria que esse estranho reage ao meu pedido de informação na rua” a “o que eu espero que meu marido/mulher faça”.

Se esvazie para o encontro com o outro. Dispa-se, encontre o nu. Sem esperar que ele tenha que te dar nada para se cobrir. Dos encontros sem expectativas nasceram as melhores histórias da minha vida. Histórias criadas a dois, não apenas na minha cabeça.

A última delas foi no dia que resolvi ir a um jantar de natal, e resolvi não dizer nada. Sim, isso mesmo: estive calada, em silêncio, durante todo o jantar. Não esperava nada dos meus amigos. Nem que eles tentassem se comunicar comigo através de gestos, nem que eles me ignorassem para que fosse mais fácil ficar em silêncio, nem que eles fossem me achar estranha, nem que fossem me achar legal e diferente por estar em silêncio. Fui nua, inocente, pronta para o encontro, de qualquer maneira que ele viesse. Foi uma das noites mais agradáveis que já tive, e no fim dela me vi dançando descalça no chão molhado de chuva do restaurante, de pura felicidade.

Tirei fotos de todos, já que eles conversando se esqueceram de fazê-lo; ouvi todas as histórias, as ditas e as não ditas – incrível como em silêncio escutamos o que está na luz e na sombra. Abracei mais. Troquei mais olhares profundos. E encontrei outras pessoas felizes, que também vieram ao meu encontro e não me pediram nada, não esperavam nada, nem minhas palavras.

Meu desejo de ano novo é encontro de mais gente nua, sem roupas de medo, carência, desejo. É mais gente inocente, vazia, em silêncio. Mais gente que escuta em vez de falar, que ouve o outro em todas suas expressões. Que respeita a história do outro, o sentimento do outro, o momento do outro. Que no novo ano sejamos também novos outros.

Categorias: Jornada

2 Comments

Andrea Melo · 12 de fevereiro de 2016 às 21:49

Muito boa essa percepção de como vamos encontrar o outro! Conheci o blog agora e estou gostando bastante dos textos (:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Jornada

A coragem de largar tudo

O Ainda Que Tardia completou três anos. Um sonho de liberdade que nasceu num rascunho de papel num carnaval em 2014, virou blog em abril do mesmo ano, virou projeto de viagem de volta ao Leia mais…

Jornada

Coisas que aprendi sobre o Brasil fora do Brasil

Passei 9 meses morando na Tailândia e foi um incrível período de aprendizados constantes em muitas áreas. Uma delas foi sobre aspectos que não dava atenção antes de sair do Brasil, e que fora dele, Leia mais…

Jornada

Não é com você, é comigo

Você já deve ter escutado essa frase, provavelmente em um término de relacionamento: “Não é você, sou eu…”. Eu achava que fosse uma mera desculpa (e para algumas pessoas talvez seja), mas hoje entendo a verdade que essa expressão Leia mais…