Parada do ônibus. Alguma cidadezinha de interior que não me preocupei em identificar, já sabia o mais importante sobre ela: encravada no mar de montanhas do sul de Minas Gerais. Depois de mas de 60 horas de viagem voltando para o Brasil, se existia um pedido apenas que eu poderia fazer a Deus, era: pão de queijo com linguiça.

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Se você nunca viajou de carro pelo interior de Minas, não tem noção concreta do que estou falando: o pão de queijo mineiro, desses de lanchonete de beira de estrada, combinado com aquela linguiça caseira feita na chapa, mineiramente levemente apimentada, é algo que pertence aos manjares dos panteões divinos. Se existe algo nessa vida pela qual vale a pena não ser vegetariano ou vegano é a linguiça caseira mineira e o queijo minas frescal.
Ao entrar logo perguntei ao senhorzinho da porta que distribuía os papéis de controle de consumo se eu conseguiria encontrar tal iguaria naquele estabelecimento. Ele me apontou na direção do balcão, um chapeiro simpático, cara e sorriso de mineiro na casa dos 40 anos me perguntou o que eu queria.

Pedi o tão desejado, sonhado há nove meses longe do Brasil, “pão-dgi-queij com linguiça”, despertando meu mineirês adormecido. Ele apontou um pão francês com mortadela de Bragança que era visualizado num cartaz. Sul de Minas tem hora que parece São Paulo. Neguei, disse que o que procurava era o legítimo lanche mineiro. Ele entendeu na hora. Perguntei da origem da linguiça: “é caseira?” Ao que ele me respondeu no melhor mineirês sobre a qualidade da mesma: “é boa”. Saiu para preparar, mas não sem antes se voltar pra mim e acrescentar: “com queijo?” Oras, faça-me o favor, que pergunta mais descabida “macaco-quer-banana”. Sorri de orelha a orelha feliz com a lembrança do moço (em Minas não importa a idade, todo mundo é moço ou moça). Perguntei pela qualidade: “daqueles bem mineiros, né, moço, frescal e tudo”. Ele pra evitar quaisquer mal entendidos na comunicação, buscou o famoso em questão e me exibiu, orgulhoso e satisfeito: “olha aqui”.
Esse queijo branquinho, redondinho e com a textura lunar, que faz aquele barulhinho gostoso quando a faca corta-lhe um pedaço generoso, geralmente para ser acompanhado por aquela xícara de café (também mineira and do Sul de Minas) guardado naquelas máquinas antigas, já servido (bem) adoçado. Lembra-me o café da minha vó.
Ao ver o queijo sendo exibido exclamei de emoção: “Nossa senhora, moço, cê num sabe quanto tempo que eu não vejo um desses. Tô longe do Brasil há nove meses, se tem uma coisa que senti falta daqui foi esse queijo”. Entendendo o tamanho da responsabilidade, o moço fez questão de caprichar: extra linguiça e extra queijo no meu já generoso sanduíche. Acompanhado pelo café já mencionado fui lambuzar-me na delícia fazendo sons de prazer enquanto comia. Obviamente não consegui terminar de comer o gigantesco lanche antes que ônibus tivesse que partir, pedi para embalar para viagem, paguei e saí, não sem antes agradecer o querido que me fez esse amor em forma de comida. Antes de embarcar novamente fiz questão de olhar pras montanhas em frente, uma pequena fazenda ao fundo com gado e respirar fundo o ar fresco e seco do inverno mineiro, que encheu meu coração de vida mais uma vez.

Sim, é bom estar em casa de novo.

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