Era o meio de uma aula de yoga. Cinquenta pessoas no hall. Eu tinha escolhido uma calça branca estampada em tons de preto, marrom e amarelo, cheia de elefantes e flores. Havia comprado essa calça há cerca de uma semana. Tinha sido barata, cerca de vinte reais, era de um tecido leve de algodão, parecido com uma canga, perfeito para o clima da Tailândia, sempre acima de trinta graus. Estando a legging suja, havia escolhido essa calça para fazer a aula.
Era o terceiro dia. Tinha chegado em companhia de um lindo alemão que também fazia o curso, e ele gostava de se posicionar na primeira fileira do enorme hall. Eu costumava ficar no fundo, um misto de chegar bem na hora da aula com não querer chamar muita atenção. Como nesse dia tinha chegado cedo, resolvi colocar o tapete de yoga ao lado do dele.


Começada a aula, faríamos doze sequências de “saudação ao sol”. Mãos para o alto, depois ao chão, uma abertura de pernas para trás, depois nádegas pra cima, e assim se seguiam doze movimentos fluidos e demandantes fisicamente. Na quinta abertura de pernas para trás, aquele barulho aterrorizante de tecido se rasgando.
“Oh, o horror”. Que dia para escolher estar na primeira fileira. Pensei rápido e tentei avaliar apalpando o tamanho do estrago. Ainda não era muito grande, mas certamente continuaria abrindo com a série de exercícios. Fiquei imensamente grata pela constante instrução dos professores de fazer os exercícios de olhos fechados, então calculei que pouca gente devia ter visto o ocorrido. Avaliei mentalmente minhas possibilidades, nada na minha mochila podia aliviar a situação. Não acreditei que alguém pudesse também ter trazido um par extra de calças pra aula, menos ainda que servisse nos meus grandes quadris brasileiros. Enquanto todos esses pensamentos passavam em segundos pela minha cabeça, continuava fazendo os exercícios e o rasgo aumentava.
Percebi que tinha duas escolhas: parar a yoga e passar o resto da aula num canto com vergonha de algo que não era minha culpa ou escolher continuar porque afinal de contas uma bunda é só uma bunda e todo mundo tem uma. Optei pela segunda e passei o resto dos asanas fazendo as pazes com ela. Uma das últimas posições de yoga era manter as pernas eretas e tocar o chão com as mãos. “Foque no seu muladhara chacra”, a professora dizia, enquanto eu tentava manter a pose por cinco minutos rindo, já que a turma toda devia estar com foco no meu muladhara chacra.

(Visited 69 times, 1 visits today)