Não se enganem pela foto em destaque do post. Esse não é mais um post a la instagrammer fitness que perdeu 20kg graças à “frutinha milagrosa-cross fit-no pain no gain” lifestyle. Espero que seus olhos sejam capazes de ver para além das gorduras a menos, mas olhar nos olhos dessa pessoa que está nas três fotos. A primeira delas é uma pessoa feliz? Tranquila? Em paz? Que se ama? E a última?

Eu iniciei meu ano de 2015 no centro de uma grande mandala cravada no chão do lindo salão das Thermas do Grande Hotel de Araxá. Sentada (ou pelo menos tentando) de pernas cruzadas, imitando uma posição meditativa. Já havia começado a meditar há cerca de um ano naquela época, mas sempre intermitentemente. Ainda assim, descobri o quão poderoso pode ser olhar pra dentro de si mesma. Naquela foto, naquele chão, meus desejos de ano novo eram de conectar de novo comigo mesma, há tantos anos perdida de mim.

Não estava nem no centro de mim nem no centro da mandala. ha.

Não estava nem no centro de mim nem no centro da mandala. ha.

Uma série de eventos do meu passado, alguns familiares, outros de abuso e violência, me fizeram me desconectar profundamente de meu corpo. Eu me entendia como sendo meu intelecto, meu corpo era apenas um veículo que me carregava por aí. Isso não era uma escolha consciente, eu sequer reconhecia isso. Até que em um sábado de setembro de 2014 uma grande amiga me fez uma pergunta poderosa: “por que você sempre acha que o que não vão gostar em você é o seu corpo?”. Essa pergunta me levou pra lugares nos quais entendi que não me reconhecia como sendo aceita e desejada pela minha família. Que não reconhecia meu corpo como sendo um templo de experimentação e prazer, mas algo que me causava dor e sofrimento.

Depois de longas conversas com muita gente significativa na minha vida, de longos períodos de solidão e realização da condição física, mental e emocional em que me encontrava, entendi que precisava de mudar completamente minha vida. Essa história teve inclusive um gatilho bem anterior, em meados de 2013, quando depois de mais uma de inúmeras crises de inflamação na coluna, na região lombar, me levaram a procurar um acupunturista. Estava cansada de ir a um pronto atendimento, tomar uma injeção de corticóides para desinflamar e assim prejudicar todo o resto do funcionamento do meu organismo. Pra ter outra crise pouco tempo depois.

 

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Eu, numa das primeiras aulas de yoga que tive, no UnCollege. Aquela morta lá no fundo que não conseguia fazer dhanurasana.

 

Esse médico, especialista em medicina oriental e acupuntura, olhou minha língua, me afirmou algumas coisas (“você tem alguma profissão estressante, né?”) e disse que eu viveria até cerca de 100 anos, e que se eu não quisesse ser uma inválida até lá, era bom eu cuidar da minha coluna. Bam. Na mesa de acupuntura comecei a pensar quem seria essa Ana Paula de 80 anos, onde ela estaria e onde ela viveria, como contei aqui no primeiro post desse blog. E aí percebi que nada que estava fazendo na minha vida me levava para esse cenário. Então resolvi mudar.

Mas resolver não significa conseguir naquele exato instante, mas surgiu o vermezinho da inquietação em mim, aquele que te cutuca em noites insones e te faz ter ideias mirabolantes e aparentemente impossíveis. Queria poder dizer pra todo mundo: ouça esse vermezinho. Ele está tecendo uma seda valiosíssima na sua cabeça, que vai te descortinar cenários de filmes de hollywod. O meu fez isso por mim.

Até acroyoga já me atrevi a tentar

Até acroyoga já me atrevi a tentar

Hoje estou aqui na Tailândia, como já contei por aqui, ainda aprendendo a trabalhar e ganhar dinheiro de outras formas que não um trabalho de 9 às 7. Aprendendo a me amar profundamente, como não achei que fosse capaz de fazer. Olhando pra dentro, me conhecendo, me explorando, me celebrando, me respeitando. Aprendendo o que é amor próprio. E esse tal de amor próprio é a frutinha milagrosa que transformou a primeira pessoa da foto na terceira, seis meses depois.

Hoje começo a contagem do meu próprio novo ano. Que os desejos desse estejam realizados também no ano que vem.

O poema que recebi de aniversário da Agama Yoga. 🙂

Blessed be the mind that dreamed the day
The blueprint of your life
Would begin to glow on earth,
Illuminating all the faces and voices
That would arrive to invite
Your soul to growth.

Praised be your father and mother,
Who loved you before you were,
And trusted to call you here
With no idea who you would be.

Blessed be those who have loved you
Into becoming who you were meant to be,
Blessed be those who have crossed your life
With dark gifts of hurt and loss
That have helped to school your mind
In the art of disappointment.

When desolation surrounded you,
Blessed be those who looked for you
And found you, their kind hands
Urgent to open a blue window
In the gray wall formed around you.

Blessed be the gifts you never notice,
Your health, eyes to behold the world,
Thoughts to countenance the unknown,
Memory to harvest vanished days,
Your heart to feel the world’s waves,
Your breath to breathe the nourishment
Of distance made intimate by earth.

On this echoing-day of your birth,
May you open the gift of solitude
In order to receive your soul;
Enter the generosity of silence
To hear your hidden heart;
Know the serenity of stillness
To be enfolded anew
By the miracle of your being.

By John O’Donohue

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