Hoje o pai do Swami, fundador aqui da escola de yoga que estudo, faleceu, e Swami voou pra sua terra natal para estar com a família. Eu acabei de sair da cerimônia que a escola fez para seu pai, em que oferecemos preces para sua alma. Durante a cerimônia não pude deixar de lembrar dos meus pais, especialmente do meu pai, que deve ter mais ou menos a idade do pai do Swami. Lembrei que estou a meio mundo, literalmente dele, e que não vai ser fácil voltar em caso de alguma emergência. Graças a Deus, apesar de idosos e claro, com vários problemas de saúde por causa da idade, meus pais estão bem.

Hoje anunciei, pela segunda vez (já que já tinha feito isso em dezembro) meu apartamento que está à venda. Também pela segunda vez disse que vou ficar na Tailândia, ainda sem tempo determinado (pode ser 3 meses, pode ser um ano, pode ser pra sempre. Eu não tenho essa resposta). Mas pela primeira vez conectei um fato ao outro, e acho que isso foi assustador pra algumas pessoas.

Eu também sabia que, mais dia menos dia, iria enfrentar o julgamento, principalmente da família, pelas escolhas que estou fazendo. Porque as pessoas criam expectativas umas das outras, e aparentemente a expectativa que minha família tem de mim é que eu devo viver para sempre ao lado dos meus pais. Porque, se não casei, ou se não fui mandada obrigada por alguma empresa a trabalhar em outro lugar, de alguma forma as pessoas não acham justo que eu não esteja ao lado deles. Porque se a decisão de ir aprender coisas e viver minha vida e tentar ser feliz onde quer que eu esteja é inteiramente minha – eu não posso culpar mais ninguém por isso – aparentemente não é justo não estar mais lá.

E é aí que esse texto chega numa parte crucial, que é na verdade o cerne da questão desde o início: liberdade é não corresponder expectativas. Nem as suas, nem as de mais ninguém. E isso dói. Dói em quem toma essa decisão, que não é fácil, e dói em quem nunca tomou porque sempre se enxergou obrigado a tomar outras decisões, exatamente para atender às expectativas das outras pessoas.

E eu já estive nesse lugar, já vivi essa vida. A da filha mineira exemplar, que morou com os pais até os 30 anos porque não casou. A que lutou e trabalhava o dia inteiro e ia à noite para a faculdade e dormia com o pai no hospital quando ele estava doente. A que foi morar com o pai quando a mãe resolveu se separar. A que fez pós graduação, comprou carro, apartamento. E adivinha: cumpri todas as expectativas dos outros (menos arrumar um homem, casar e ter filhos) e parece que fazia os outros feliz, mas não a mim.

Verdade que felicidade é uma escolha, e pode se escolher ser feliz em qualquer situação que a vida se apresente para a gente. Porque não é o que acontece com a gente, mas sim o que a gente faz com o que acontece com a gente. Mas eu precisei vir aqui para o outro lado do mundo para aprender essa lição, e ainda estou aprendendo essa e tantas outras. Porque no Facebook tem só as fotos da praia, do pôr-do-sol e dos eventos exóticos e divertidos, mas não tem da carteira que passou quase um mês com o equivalente a 5 reais. Não tem dos músculos e coração doídos de tanto trabalhar neles. Não tem da faxina que fiz hoje pra ajudar com mais uma graninha. Não tem da dieta meio que forçada porque não tá dando pra pagar as contas. Não tem das inúmeras vezes que precisei pedir ajuda de quase estranhos para as coisas mais básicas. No instagram, como se diz em Minas, “todo mundo vê as pingas que eu tomo, mas ninguém vê os tombos que eu levo”.

E enquanto esses aprendizados estiverem me dando tapas na cara e socos no estômago, vou estar aqui. Ou em qualquer outro lugar do mundo. Mas não vou viver uma vida que serve para os outros, e não para mim. E isso não se chama egoísmo, mas amor próprio, que parece que finalmente estou começando a aprender.

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