Eu tenho várias questões com autoestima e autoconfiança que preciso trabalhar em mim. A cada dia eu entendo melhor a mim mesma, me aceito e me amo mais. E para que isso acontecesse eu precisei de ajuda. Fiz terapia com diferentes psicólogos, tentei várias coisas socialmente aceitas no mundo ocidental. Elas ajudaram um pouco, mas acredito que bem superficialmente. Somente depois de entrar em contato verdadeiro comigo mesma – através do tantra – meu passado, meus traumas, medos, encarar essas coisas de frente e querer de verdade lidar com elas que estou aprendendo a ser quem sou. Uma das coisas que aprendi aqui na prática foi disciplina, e para isso me coloquei um desafio (chamamos isso na yoga de Tapas): chamar 10 caras que eu esteja interessada para sair em um mês.

Sim, isso é muita gente. Sim, isso é assustador. Por que eu decidi fazer isso? Porque morro de medo de rejeição. E preciso aprender a lidar com esse sentimento. Além de construir autoconfiança e me ajudar a distinguir quando um cara está interessado e quando não está. Isso sempre foi uma coisa com a qual tive dificuldade.

Tive medo de ser julgada, afinal, no mundo socialmente aceito ocidentalmente, machista, ~mulher que se preze não chama caras pra sair~. Esse era outro importante aspecto da questão, tirar meu próprio julgamento sobre mim e também o dos outros. Meu julgamento sobre meu corpo, meu julgamento sobre minhas ações, minhas expectativas, ilusões criadas. Tudo isso estava em jogo toda vez que construía coragem para chamar um cara para jantar.

Eis aqui a lista do que aconteceu:

1. Era um desejado professor da escola de yoga. Daqueles caras que são desejados por 9 entre 10 mulheres e 9 entre 10 caras. Um dos primeiros que coloquei os olhos na ilha. Nunca tinha olhado na minha cara direito até que um dia algo que fiz chamou a atenção dele (apesar de não ter sido de maneira nenhuma direcionada a ele). Decidi que ele deveria ser o primeiro da minha lista, porque era exatamente o que parecia mais inalcançável, o que eu precisava de mais coragem para chamar para sair. Um dia, ao me despedir dele, simplesmente mandei: “Eu gostaria muito de jantar com você algum dia essa semana”. Ele aceitou. Foi uma noite agradável de ótima conversa, e eventualmente ele me disse que não estava interessado em mim.

2. Um francês tímido mas charmoso, que eu não sabia se estava a fim de mim ou sendo apenas legal (me lembra a saudosa comunidade do Orkut “sou legal, não estou te dando mole”). Primeiro disse que estaria ocupado, depois titubeou quando me viu bonita em uma noite e disse que teria tempo, mas o jantar nunca aconteceu. Depois soube que ele arrumou tempo para estar com outra pessoa. Parece que ele estava sendo apenas legal.

3. Um sagitariano aparentemente muito calmo, que disse não logo de cara, assim. Acontece.

4. Um novaiorquino gatíssimo todo tatuado, que disse “claro, vamos marcar”. De novo, nunca mais tive notícias.

5. Um americano incrivelmente bonito que sempre via em um dos bangalôs onde nós estávamos hospedados. Nunca tive nem coragem de puxar papo com ele, sabe esses caras que parecem estar ocupados demais com suas coisas pra dar abertura pra papo furado? Então nunca tínhamos passado das cordialidades até que uma noite coincidimos de voltar ao mesmo tempo para casa. Ele deu um “good night” mais interessado do que de costume, caminhamos um pouco em silêncio pela fila de bangalôs até que passamos pela sua porta, ele já ia entrando quando criei coragem e puxei papo. Ele facilmente voltou e me deu atenção, conversamos por uns 15 minutos e quando íamos nos despedindo mandei a pergunta. Ele iria embora para o norte da Tailândia em duas noites, então chamei-o pra jantar no dia seguinte. Ele aceitou. Foi uma linda noite. Jantamos, fomos até uma casa de chocolates orgânicos para sobremesa, ele ainda parecia querer mais minha companhia mesmo tendo que acordar cedo no dia seguinte. E perguntou se eu não sabia de algum lugar interessante para irmos em seguida, fomos até um lugar especial aqui na ilha que é, além de uma sauna, uma experiência de olhar estrelas, estar em volta da fogueira e sentir a natureza.

Passamos a noite tendo profundas conversas. Senti uma forte conexão com ele, para muito além do fato dele ser um cara bonito. Ele é presente, centrado, maduro apesar da sua pouca idade. Sedento de aprender coisas significativas. Percebi que ele estava interessado, mas talvez tímido. Resolvi tomar a frente mais uma vez e manifestar diretamente o desejo de beijá-lo. Não aconteceu, ele manifestou interesse mas o entendi dividido entre fazer o que ele queria e estar conectado emocionamente ainda à sua ex. Encerramos a noite, ele se foi logo cedo no dia seguinte, recebi o convite de ir com ele e quase cedi à vontade de seguí-lo. Mas o que estou aprendendo aqui é mais importante do que manter acesa uma ilusão de que algo poderia ou não acontecer entre nós. E decidi ficar porque preciso primeiro pensar em mim do que ceder ao desejo de estar com outra pessoa que ainda não decidiu se quer ficar comigo.

6. Outro professor, esse também lindo, que vira e mexe pegava me olhando. Num workshop sobre tantra tive a oportunidade de fazer com ele um exercício de conexão, olhando-nos nos olhos por vários minutos. Apesar de não ter tido outro sinal, decidi convidar. Ele disse estar ocupado. Não insisti. Ele continua me olhando.

7. Um lindo de olhos azuis que tinha me dado match no tinder, e que acabamos nos encontrando por acaso na aula de yoga. Apesar do match, nenhum convite para sair, então mandei para ele uma mensagem de onde estava o convidando a ir para lá. Ele já estava indo dormir, mas desistiu e foi me encontrar. De novo uma noite agradável, mas estranhamente não havia química. Me dei por satisfeita.

8. Um total estranho com o qual tive loucas mas lúcidas conversas em um nível de compreensão que jamais encontrei. Tivemos um almoço delicioso e ficamos de marcar outra coisa. Ele parecia interessado. Mas sumiu. Mandei uma mensagem. Ele não respondeu. Não insisti mais.

9. Nunca tinha chamado um cara tão mais jovem que eu pra sair. Mas ele parece uma alma antiga e tivemos uma conversa tão aberta e profunda que não resisti. Já sabia que ele ia dizer não. E ele foi direto: “No, because you’re too old for me”. Hahaha. Comecei a achar essa brincadeira divertida.

10. De novo o cara “não sei se está sendo legal ou me dando mole”. Acontece muito por aqui, já que é uma comunidade diferente onde as pessoas te abraçam, te olham nos olhos enquanto conversam e realmente mostram interesse em você, mas é difícil diferenciar esse interesse de algo mais. Depois de um jantar com amigos tivemos a oportunidade de conversar sozinhos por um tempo. Era perceptível a conexão e o interesse. Resolvi dizer de uma vez, “é uma pena que você esteja indo embora amanhã”. Ele fez que não entendeu, eu insisti “porque eu estou interessada em você”. Ele mostrou toda sua timidez charmosa, corando, mas não desviando o olhar. Passou por um término de relacionamento há poucas semanas e, sendo um cara sensível e consciente, achou melhor não ir além agora. Mas ele prometeu voltar em algumas semanas. 🙂

Ao longo dessas três semanas que levei pra completar a tarefa (nem gastei o mês todo, haha), fui aprendendo pouco a pouco a me desapegar da rejeição. E aprendendo também a identificar os pequenos sinais que alguém que está realmente interessado manda. E ao fim da lista, já estava me divertindo com o processo, sem me preocupar exatamente em obter uma resposta positiva. Por isso, resolvi me dar um bônus: o número onze ainda não se apresentou, mas estou aberta pra ele.

E você? Tem costume de chamar caras para sair? Como lida com isso?

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