Quando eu tinha cerca de cinco anos de idade, meus pais me deixaram sozinha em uma viagem, sem eles, pela primeira vez que eu me lembro. Eu me recordo exatamente da estrada de terra, cheia de cascalhos, na porta do sítio do meu tio. E dos meus sentimentos misturados de explorar uma aventura sozinha, sem meu pai e sem minha mãe, pela primeira vez. Era um misto de entusiasmo com medo, algo que é impossível descrever em palavras. Quase pedi para ir embora com eles (e provavelmente eu devo ter pedido), mas por algum motivo eles acharam que ia ser importante pra mim aquele tempo longe deles. Na minha memória esse tempo durou uma semana e foi doloroso, mas ao mesmo tempo me lembro de ter aprendido muito nesse tempo. Aprendi o quanto a solidão ensina. O quanto podemos descobrir e aprender por nós mesmos. O quanto as pessoas à sua volta não estão unicamente preocupadas com o que você quer ou sente. Que você precisa aprender a se virar sozinho.

Essa talvez seja minha primeira memória de “coisas que aconteceram comigo que eu não planejei, gostaria ou que era exatamente o contrário do que eu queria”, mas, no entanto, foram as melhores coisas que já me aconteceram.

Depois disso, outra coisa que não planejei nem gostaria e que foi algo maravilhoso, foi quando morei em uma favela. Morei seis meses na casa da minha avó, em um bairro muito pobre (e que muitos chamam de favela).  Minha mãe resolveu se separar de meu pai e ambas saímos de uma casa de uns 200m em um terreno de 900m em um bairro de classe média alta para uma meia casa de uns 60m em um lote com mais outras duas casas, todas da minha família. Meus primos de segundo grau moravam logo acima de mim, não havia (como não há até hoje) revestimento externo na casa (como na maior parte das casas do bairro) e a casa ficava numa pequena praça. Mas ali eu brincava na rua com os vizinhos e meu primo, a escola que eu estudava era literalmente do lado de casa e eu ficava conversando com meu primo pelo muro na hora do recreio. Ali descobri mais uma vez outras maneiras de me virar sozinha, a vender coisas para ganhar dinheiro, a ser reconhecida como uma menina bonita (eu tinha então 13 anos), a me apaixonar perdidamente e não ser correspondida (até que fiz 16 e ele finalmente me notou).

Quando criança me lembro de pedir encarecidamente pra minha mãe para não estudar em um colégio de freiras que tinha perto da minha casa. Ela não me mandou pra esse, para meu alívio. Aos 14 anos eu resolvi que queria estudar em um colégio técnico muito conhecido em BH. A prova para passar era bem difícil, e apesar de eu ser uma boa aluna, acabei não passando nesse teste. Mas passei em um outro, que dava acesso a uma enorme rede de outras escolas técnicas em Contagem. Por motivos políticos exatamente nesse ano o então prefeito acabou com essa rede de escolas, e todos os 3 mil alunos que passaram no teste foram realocados em escolas da rede estadual de ensino. E, por causa da minha boa colocação na prova, eu acabei indo estudar no melhor colégio da rede pública da cidade: um colégio de freiras. Foram maravilhosos três anos da minha vida, onde conheci alguns dos meus melhores amigos até hoje. Foi quando eu ganhei mais autonomia, pois estudava à noite (e qual adolescente não gosta de sair à noite?). Quando aprendi a fazer projetos divertidos pra aula. Onde exercitei minha criatividade e tive contato com vários mundos que amo até hoje. Onde convivi com tanta gente diferente que tanto me ensinou (inclusive as freiras).

Aos 17, meu sonho era passar de primeira no vestibular da universidade federal. Já sabia com certeza o que queria fazer e sonhava com cada pedacinho do enorme campus que eu exploraria. De novo as provas me traíram, e apesar de tentar quatro vezes (e sofrer muito e aprender muito no processo) eu acabei não entrando. Mas aprendi de novo que precisava me virar. Criei alternativas pra mim mesma, aprendi outras coisas, que me permitiram conseguir um emprego, que me permitiram pagar eu mesma por uma faculdade particular (a melhor da cidade no curso que eu havia escolhido).  E de novo foram incríveis 4 anos, onde fiz outra boa parte dos meus melhores amigos, onde tive acesso a oportunidades e pessoas que jamais imaginaria. Foi o tempo que aprendi a me permitir a fazer coisas diferentes das que eu achava que seriam legais, e que foram surpreendentemente legais. Onde me libertei de tantas amarras que nem posso contar.

Depois de tantas vezes que a vida traiu minhas expectativas, uma das coisas que aprendi foi a confiar nas coisas inesperadas que ela traz. Todas as vezes que me rendi ao inesperado, cresci enormemente. Aprendi a olhar o mundo com olhar de encantamento, a reconhecer o valor das pequenas coisas, a reconhecer momentos de felicidade. O planejado, a certeza, o seguro, são um alívio, mas nada ensinam.

Hoje o que ensinamos cada vez mais às crianças, aos adultos, é a se certificar de que algo vai seguir de acordo com o planejado. Os ensinamos a pesquisar mais, a buscar estudos de caso, boas práticas, a, de alguma forma, pedir ao universo a segurança que aquilo que estamos a fazer dê certo. “Você tem que escolher bem a escola do seu filho”, “a carreira certa”, “o homem ou a mulher ideais”. Nessa visualização da expectativa versus realidade  tudo que queremos é que a realidade seja uma cópia autenticada dos nossos planos. E nos frustramos absurdamente quando não é. Eu te convido a repensar todas as vezes que suas expectativas não foram atendidas e que, por causa disso, coisas maravilhosas aconteceram.

O aprendizado não tem seguro. Todas as vezes que meus planos deram errado, minha vida deu certo.

Categorias: Jornada

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