Toda vez que alguém me pergunta aqui “por que você escolheu vir pra Tailândia?”, confesso que não sei explicar em poucas palavras. Acabo respondendo que acho que o lugar me escolheu, mais do que eu escolhi o lugar. Quando penso na sequência de acontecimentos que me trouxe até aqui, a fazer o que estou fazendo hoje, não há muito planejamento ou limites rígidos estabelecidos, o que é bem raro pra mim: sou uma pessoa que planeja.

Estou em Ko Pha Ngan, uma ilha no golfo da Tailândia, já há um mês. Cheguei no país e passei duas semanas voluntariando ensinando inglês para tailandeses em um hostel em Bangkok. Tinha marcado um workaway aqui na ilha, que oferecia aulas de yoga além de hospedagem. Foi um dos poucos lugares que vi aqui na Tailândia que oferecia yoga no período que eu estaria aqui. E eu queria praticar por vários motivos, mas o principal deles é que tinha marcado um retiro de meditação Vipassana: 10 dias de silêncio absoluto meditando 10 horas por dia.

Tendo me informado e sabendo que essa meditação pode ser brutal pro aspecto físico, pela dificuldade de se manter nas posições necessárias, entendi que seria importante pra mim trabalhar melhor meu corpo antes de me submeter a essa prova de fogo. Não sou chegada em exercícios físicos e sei que tenho um longo caminho pra percorrer no que se refere ao conhecimento dos meus próprios limites físicos, com frequência passo deles e me machuco.

Aí entra o motivo principal desse post: tenho ouvido com cada vez mais frequência as pessoas dizerem para “ouvir seu corpo”. Se eu ainda não falo a língua dele, fica um pouco difícil ouví-lo. Passei por uma experiência profunda de autoconhecimento aqui quando escolhi fazer uma massagem tântrica (que aliás recomendo muitíssimo com profissionais sérios e capacitados, como a Yogita), e entendi que precisava de mais do que uma pequena aula de yoga por dia sem muita explicação técnica. O problema é que já tinha feito planos, comprado passagens, reservado lugares e me comprometido a fazer a meditação Vipassana. Deveria ter começado o retiro de silêncio no dia 28/10. Não fui.

Não fui porque há quase 20 dias, depois de passar pela experiência do tantra, fui assistir à primeira aula do curso de nível um (são 24 níveis ao total) em uma escola de yoga chamada Agama, aqui em Ko Phangan. Depois de praticar na aula e ouvir uma palestra enorme do Svami fundador da escola, percebi ali meu chamado, e segui meu coração e o fluxo. Essa parte acho que estou aprendendo bem, a ouvir a mim mesma e seguir para onde a correnteza leva. Para mim sempre pareceu desprendimento demais, um desprendimento impossível no meu caso, sempre tão planejadora e orientada aos meus objetivos. Mas ser humilde e reconhecer que o que você escolhe nem sempre é o melhor para você, também é um aprendizado. Esse curso me escolheu, a Yoga me escolheu, e não apenas o contrário. Eu poderia (e seria bem mais barato e fácil, inclusive) me ater aos meus planos iniciais e seguir rumo ao norte para a Vipassana. Mas meu coração bateu forte e eu percebi que precisava aprender mais sobre mim, sobre meu corpo, sobre yoga. Então fiquei.

São 28 dias, 6 horas por dia de yoga, 4 de prática, 2 de teoria. Só tenho folga aos domingos. Todos os dias meu corpo dói. Todos os dias eu volto lá e saio mais feliz do que cheguei.

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