Esses dias precisava escrever um post de blog para o trabalho que ajudasse pessoas que são muito focadas em carreira a enxergar que existe mais da vida do que o trabalho de 9 às 7 (e das coisas que você faz pra esquecer que tem um trabalho de 9 às 7, tipo ir em festas e beber). Mas claro que se eu escrevesse um lindo post sobre como não nascemos pra cumprir funções como máquinas, elas provavelmente ignorariam. Então resolvi pensar em como mostrar a eles que todas as atividades que você pode desenvolver fora do seu horário de trabalho, aquelas coisas que você faz por prazer, podem fazer diferença “para você conseguir um emprego melhor”, o tal do “se diferenciar no mercado de trabalho”. Porque é isso que quem tem um foco grande carreira está interessado: como não parecer alguém inútil para o trabalho.

Minha amiga Isabella consegue resumir em uma frase um sentimento dominante nas gerações anteriores à nossa (e em muitas da nossa): “só é útil quem está trabalhando”. O esforço em estar e parecer ocupado é em função de não parecer um vagabundo, alguém que não faz nada da vida, um peso morto. Por quê? Porque hoje encaramos quem consegue ter tempo livre pra fazer as coisas que gosta como alguém que não tem utilidade?

Eu entendo esse sentimento. Eu já fui (e ainda sou muito) essa pessoa. Há menos de três anos eu tinha um documento de planejamento de carreira (que ainda deve estar perdido em alguma pasta do meu Drive) que descrevia minhas metas profissionais, por ano. A pós-graduação, o mestrado, os cargos que eu gostaria de estar ocupando em cada uma das fases da vida. Engraçado que ainda tive uma tentativa pífia de aliar minha vida pessoal nesse documento, mas tudo que consegui foi estabelecer metas do que eu queria pagar pra fazer ou conseguir, mas que são coisas que não dependem de forma nenhuma de ter meta estabelecida (tipo, fazer depilação a laser, emagrecer e arrumar um namorado – WTF?).

Quando imaginei o post, pensei em propor um exercício que fizesse essas pessoas resgatarem todas as atividades fora trabalho formal que elas já fizeram. E pra exemplificar, resolvi listar as minhas.

 

Notei algumas coisas interessantes:

– Todas as coisas mais legais que fiz, foi depois de ter tirado a faculdade do caminho, depois de me formar. Porque quando você trabalha e estuda, não tem muito mais tempo na sua vida de pensar em nada. Ou está trabalhando e estudando, fora ou dentro do trabalho e faculdade, ou está fazendo qualquer coisa pra se distrair de que você está trabalhando e estudando muito. Então me formei em 2008, e em 2009 tive que procurar coisas pra fazer com minhas noites e fins-de-semana livres.

– Quando fui obrigada a me perguntar o que eu gostaria de fazer com esse incrível tempo livre que eu tinha acabado de ganhar, e que eu decidi me dar (porque não quis de jeito nenhum emendar uma pós-graduação) que descobri e redescobri uma série de interesses há muito deixados de lado. Voltei a escrever, conheci gente diferente, vivi, fui feliz.

– E percebi que desde 2009, nunca mais parei de fazer o que gostava. Mesmo trabalhando todo o tempo e ainda fazendo pós graduação por dois anos, consegui encaixar sempre aqui e acolá algo que fazia apenas por prazer. Claro, perdi a oportunidade de fazer muita coisa em todos os infindáveis sábados de sol que passei enfiada em uma sala de aula. Mas sou daquelas que tudo vale a pena se a alma não é pequena, então tudo bem.

– Fiquei impressionadíssima comigo mesma quando vi a lista imensa de coisas que fiz. De verdade. Eu tinha na minha falha memória que seria uma lista de meia dúzia de coisas, e elas foram só se multiplicando. Chegou uma hora que decidi apenas não listar algumas, já que ficaria uma imensa lista chata pra todas as pessoas que não viveram nenhuma daquelas coisas que eu vivi. Descrever em um papel “toquei repinique em um bloco de carnaval de rua de BH” nem arranha de longe a sensação maravilhosa de todos os ensaios e desfiles e feijoadas do Samba Queixinho que participei.

Gosto muito dessa foto por tudo que ela representa. Aqui eu estava muito feliz, exercitando algo que aprendi, com pessoas legais e finalmente relaxando e aproveitando o momento.

Gosto muito dessa foto por tudo que ela representa. Aqui eu estava muito feliz, exercitando algo que aprendi, com pessoas legais e finalmente relaxando e aproveitando o momento.

– Fiquei imaginando a lista de outras pessoas que conheço, e acredito que elas podem se surpreender quando começarem a enumerar seus feitos por paixão pessoal. Afinal, se eu que já sabia que tinha um monte de rolês estranhos (como diria o Rocha), imagina alguém que pode estar se sentindo oprimido por achar que fez pouco do seu tempo. Eu achei libertadora a sensação de que aproveitei muito bem minha vida nos últimos seis anos. E que isso não tem a ver com o tanto de festas que eu fui, nem o tanto que bebi, nem o tanto de gente que beijei ou transei (que aliás, pouco me interesso em listar todas essas coisas). As experiências, habilidades, conhecimentos, e todas as trocas riquíssimas que consegui com as pessoas com as quais compartilhei momentos de “fazer o que se gosta” valem muito mais do que os momentos de obliteração.

Percebam que o verbo “fazer” está sempre presente. Você não faz TV, você assiste; você não faz internet, você navega; você não faz bebida, você bebe. Mas se você gravar um vídeo legal e colocar no youtube, você está fazendo TV (a  nova TV, pelo menos). Se você criar um blog e começar a escrever, você está fazendo internet. Se você organizar uma festa, cuidar de todos os detalhes para que as pessoas se conheçam, conversem e se divirtam, você está fazendo uma festa. Se você resolver fabricar cerveja, você está fazendo cerveja. Descubra aquilo que você gosta de fazer.

Estar trabalhando ou estudando formalmente (“você trabalha ou estuda”? Sempre perguntam pra gente, como se fosse o único caminho binário a escolher) não tem nada a ver com ser útil. Todas as outras coisas que você faz que fazem de você quem você é. E não sua profissão e o que você faz por ela.

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