Então. Eis-me aqui, do alto dos meus trinta e poucos anos. O que propus pra minha vida até agora alcancei (exceto achar um amor pra vida inteira, mas isso não é meta que se estabeleça). Formei, estou terminando a pós, consegui trabalhar em lugares legais (outros nem tanto, mas faz parte), fiz grandes amigos pelos caminhos, namorei aqui e acolá, saí da casa dos pais e consegui fazer sozinha uma declaração do imposto de renda. Tudo com esforço, nada de mão beijada, mas ainda assim, grandes coisa (como diria uma boa mineira, trocando o plural das palavras de lugar). Mas lá, bem lá, um incômodo que não cessa, o que fica sempre dizendo: então tá, qual o próximo passo? A próxima coisa que você quer?

Resolvi voltar atrás e perguntar pra menina sonhadora o que ela queria da vida. E ela respondeu que era viajar pra Nova Zelândia e ser professora. E que não ia se casar (pelo menos é o que conta minha mãe e uma prima muito querida, eu ainda tenho lá minhas dúvidas, mas vai saber). Resolvi perguntar também pra velha (e talvez nem tanto) respeitável senhora que um dia com sorte serei, e ela respondeu que quer ter uma casa na beira da praia e viver feliz ao lado de um labrador, nadando todos os dias no mar com ele e comendo camarão. As duas me dizem que viver fincada aqui no minério de BH não é resposta.

 

Casa Aberta linda imaginada pela Fabi Soares e desenhada pelo Santiago Regis, que traduz bem meu desejo de casa quando velha.

Casa Aberta linda imaginada pela Fabi Soares e desenhada pelo Santiago Regis, que traduz bem meu desejo de casa quando velha.

Um grande amigo me deu duas pulgas, ambas estão atrás da minha orelha até hoje. Ele certa vez questionou: “você quer ser rica ou feliz?“. E de outra vez: “você quer mandiocar?” As duas questões me levaram a repensar o que eu queria da vida. Não, não quero passar 10 miseráveis anos galgando posições em uma grande empresa na qual certamente odiarei trabalhar só para ganhar muito e ter uma vida miserável trabalhando 14 horas por dia. Também não, mandiocar, criar raízes bem grossas e grandes na terra, casar, ter filhos e almoçar aos domingos na casa da mãe não é pra mim, pelo menos por agora. Talvez nunca.

Pois bem, pois então. Finalmentes da pós chegando, um tal de TCC pra entregar, comecei a estudar uns troço esquisito que me fizeram questionar o meu propósito. E tenho uma suspeita altíssima que ele será a respeito de aprendizado. “Aprender é algo que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende”, diz um aforismo atribuído a Leonardo da Vinci (ou seria Clarice Lispector? Na internê nunca se sabe). Essa frase me toca fundo, me preenche, me justifica.

Assim como viajar. Viajar é um aprendizado por download direto no cérebro, como em Matrix. Não me lembro da minha primeira viagem, pois tive sorte de ter pais que me arrastavam por todos os lados onde iam, desde bebê. Mas tenho clara na lembrança a primeira vez que fui deixada sem eles, na casa de tios. Aos 4, talvez, foi bem doloroso, mas ao mesmo tempo, libertador. Passei alguns dias (ou pelo menos me pareceram dias) acabrunhada, mas com o tempo fui descobrindo as coisas por mim mesma. E tomei gosto pela viagem. Acompanhada, na maior parte das vezes, mas sem medo de estar sozinha também. Aprendi a criar asas.

O que nos leva a pergunta do título: criar raízes ou asas? Agora me fazem mais sentido abrir bem largamente as asas, abraçar o mundo. Descobrir de que a liberdade é feita. Como ela é sentida, expressada, vivida por outras pessoas, em outras culturas. E assim nasceu o projeto Ainda que Tardia, se lança como blog mas tem outras aspirações, que se revelarão a seu tempo. Por ora, um relato do próximo ano, no qual pretendo organizar a vida pra conseguir passar um tempo viajando, investigando a liberdade. Vem comigo?

 

(Visited 114 times, 1 visits today)