Copa do mundo de futebol no Brasil e não imaginava que eu fosse gostar tanto do evento. O futebol já não brilha aos meus olhos como antes, por motivos alheios a ele mesmo, e por isso achei que esse ia ser um evento que ia passar em branco pra mim. Botei pouca fé que viessem muitos turistas estrangeiros para BH, pelo simples fato do desconhecimento quase total da capital das Gerais aos olhos do mundo.

Assim como você que achou que o Brasil ia ganhar da Alemanha, eu também me enganei. Pois tá tendo copa e tá tendo gringo. E minha vida foi suspensa temporariamente por motivos de copa, já que quase todas as noites meu destino certo é a Savassi, bairro-sede dos bares, babado, confusão e gritaria dessa bela cidade.

Da esquerda pra direita e de cima pra baixo: Stuart, Bruno, eu, Anthony, Niall e um gringo aleatório.

Da esquerda pra direita e de cima pra baixo: Stuart, Bruno, eu, Anthony, Niall e um gringo aleatório.

Nessas e em outras conheci muita gente legal de muito lugar diferente e essa troca cultural intensa está preenchendo meus dias de alegria e aprendizado. Como é bom olhar nos olhos dos outros e desfazer estereótipos, ter boas dicas e criar até novas amizades. Gente que a gente se afeiçoa não precisa ter nacionalidade, língua ou cultura iguais às suas, e isso é lindo demais.

Olha o que e com quem aprendi até agora:

Niall Doherty – um irlandês que não bebe e que conquista quem quiser com seu jeito sincero. Conheci pela Isabella que esbarrou com ele no elevador de um co-working, passamos dias só nos falando no Facebook até que ele apareceu com mais vários outros amigos em um jogo que estávamos assistindo num bar. Com ele aprendo como é possível ser agregador de pessoas mesmo sendo tímido, e como manter a disciplina mesmo estando rodeado de tentações. Ele viaja o mundo há três anos sem nunca ter entrado num avião e trabalhando (muito!) de onde estiver. Já recusou um monte de convite meu e dos outros pra sair porque tinha que trabalhar, mas ainda assim consegue ser a cola que junta tanta gente por aqui. Já mora no meu coração.

Mitchell Roth – o americano mais mineiro que já conheci. Com ele aprendo como ter mel nesse trem mergulhar numa cultura através de estar aberto para ela. Ele faz junto com o Niall aulas de forró três vezes por semana desde que chegou aqui, e vou te falar que já sabe dançar gostosinho e coladinho como um bom brasileiro. Ontem me viu com uma blusa que tinha versos de Vinicius de Moraes, me perguntou o que era, respondi que era poesia e já indiquei pra ele poetas brasileiros. Já arrisca uma coisa ou outra em português e tem uma alegria tão contagiante que chega a fazer inveja. 

Anthony Middleton – um inglês irônico (pleonasmo) que emana simpatia e respeito. Tem um humor delicioso e tem um talento ímpar de conseguir fazer piada sem ofender pessoas. O cuidado que ele demonstra em ser respeitoso é lindo. Além disso é super aventureiro e também viaja o mundo há três anos, experimentando coisas incríveis como pular do bungee jumping mais alto do mundo. Ainda aprendo a ser como ele.

Stuart Murray – outro inglês, me mostra a beleza da inocência. Sua felicidade em estar aqui no Brasil é tão genuína e espontânea que é impossível não ficar feliz com ele. Ele economizou quase dois anos grana de três empregos para estar aqui para a copa, e está realizando seu sonho. Ele me ensina a ser resiliente e paciente. E tem a mãe mais fofa do mundo.

Michaela Schik (e sua turma) – alemães e sua alegria e respeito. Michaela é um doce de menina, e assim como todos os alemães com os quais tive contato, foi aberta, doce e alegre. É muito gostoso perceber que esse estereótipo de sisudez alemã é pura bobagem, e como é bom ver gente que consegue demonstrar tanto respeito por outra cultura e pelas pessoas. Nem o Mineiratzen de ontem consegue me deixar triste depois de ter contato com esse povo tão legal. A lição que fica é humildade.

Carlos Ortiz e Tendai Makwanya – Carlos é americano filho de pais colombianos e Tendai um zimbabuense que mora há quase metade da sua vida na Austrália. Com eles aprendi que é possível fazer amigos muito rápido e partilhar histórias muito diversas das tradicionalmente esperadas. Como ser médico e morar numa cidadezinha pequenina com uma estação de esqui que tem o lixo assaltado por ursos de noite ou ter irmãs que preferem homens de sua própria cultura em vez daquela supostamente mais “evoluída”. Com eles aprendo que cada história é individual, as escolhas são únicas e que uma pessoa não é capaz de calçar os sapatos da outra e julgar as escolhas de ninguém.

Pois é. Pra muita gente a copa acabou com o 7×1 de ontem, pra mim ela ainda demora a ter fim. São tantas gentes e aprendizados que o legado que ela vai deixar pra mim certamente é muito maior que eu imaginava.

E você, o que tem aprendido com as pessoas que conhece?

UPDATE:

Tava quase dormindo quando lembrei dessa palestra do TED que é foda, e fala sobre julgar algo por apenas uma história que conhecemos.


R.R. · 24 de julho de 2014 às 20:09

O texto é muito gostoso de ler, como vários outros que li aqui.
Mas cá entre nós: você já escreveu um post sobre os brasileiros que conheceu?
Não me conformo com isso. Isso tudo aí ó aprendi com vários amigos brasileiros. Além disso, se o tema é superação, tenho certeza que não faltam brasileiros para ensinar algo… Se é paciência, tenho certeza que também não faltam brasileiros para ensinar…
Enfim.. Gostei do texto, mas eu gostaria mais se no lugar dos gringos encontrasse um alagoano, um mineiro, um paulista…

    Ana Paula Coelho · 24 de julho de 2014 às 22:27

    Oi R.R!
    Que bom que gostou dos posts! Adoro escrever e tento escrever sempre da forma mais espontânea possível. Acho que é sempre mais gostoso ler algo que foi escrito de forma espontânea. 🙂
    Sobre o aprendizado, pode ter certeza que aprendo demais da conta com brasileiros todos os dias, por isso mesmo que meu recorte foi só dos estrangeiros: eu escreveria um livro se fosse falar dos brasileiros, e não só um post.
    Abraços!

      R.R. · 24 de julho de 2014 às 22:31

      Eu notei a espontaneidade! Fica particular o texto! 🙂

      Mas então, moça! Escreva! Escreva sobre seus amigos, escreva sobre os inimigos, escreva sobre os brasileiros que você nem conhece! Escreva sobre aqueles você irá conhecer! Mas fale de nós! É importante isso!

      Precisamos de uma identidade, precisamos gostar de nós mesmos!

        Ana Paula Coelho · 25 de julho de 2014 às 10:18

        Oi R.R !

        Mas falar de outra pessoa não significa que gostemos menos de uma. Não é porque falei dos estrangeiros que gosto menos dos brasileiros, aliás, se vc ler outros posts, vai ver que já citei em diversos deles um monte de amigos meus, todos brasileiros. 😉

      R.R. · 25 de julho de 2014 às 11:52

      Bem, eu não quis dizer isso. Me referia a uma questão um pouco mais séria que ando na cabeça por esses meses de copa.

      Mas é isso… sucesso aí pra você e pro blog! 😉

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