Você já deve ter escutado essa frase, provavelmente em um término de relacionamento: “Não é você, sou eu…”. Eu achava que fosse uma mera desculpa (e para algumas pessoas talvez seja), mas hoje entendo a verdade que essa expressão pode carregar. Quando assumimos a responsabilidade da autonomia das nossas ações e escolhas, nada mais se torna culpa do outro. Nada que a outra pessoa disser ou fizer, poderá ser usado como justificativa para nossos atos ou escolhas. E isso é altamente assustador para a maioria de nós.

Quando comecei esse blog e a proposta de investigar a liberdade, logo uma amiga me apontou na direção de Jean Paul Sartre. Sartre afirma que o homem aliena-se (ou seja, abre mão) da própria liberdade por não suportar o peso das próprias escolhas. Quantas vezes fazemos isso diariamente? Estamos chateados porque alguém fez algo conosco, ou algo aconteceu com a gente. Ou seja: atribuímos a algo externo o poder de mudar algo em nós. Na maior parte das vezes não percebemos que a nossa reação a um fato que acontece conosco nada tem a ver com o fato em si, e que temos escolha sobre nossa ação ou re-ação. E que todo o poder sobre nossa mudança, ou não-mudança está em nós mesmos.

Há quem questione e diga que há sim situações extremas em que reagimos “instintivamente”. Na maior parte das vezes atribuímos a um suposto instinto o que na verdade pode ser uma reação emocional impensada. Perceba a diferença: quando atribuímos ao instinto, significa novamente que estamos abrindo mão da nossa responsabilidade sobre nossa autonomia e controle pessoal (ou seja, se é instinto não há nada que eu possa fazer sobre isso), enquanto se é uma reação emocional impensada significa que podemos não-reagir imediatamente, pensar e escolher como lidar com uma determinada situação.

O princípio de Comunicação Não-Violenta nos ajuda a diferenciar cada uma dessas possibilidades, e ela pode ser uma excelente alternativa à maneira culpabilizante que geralmente utilizamos. Nela usamos empatia, nos colocamos no lugar do outro e, fazendo perguntas sinceras, tentamos entender as motivações e sentimentos da outra pessoa. Dessa forma, em vez de reagir a algo que o outro fez ou disse que nos incomoda, podemos entender de onde essa ação vem e escolher a forma que vamos reagir a ela, nos respeitando e respeitando a outra pessoa, expressando as nossas necessidades de forma clara, fazendo pedidos e negociando. Não é fácil, requer muito treino, já que somos criados em uma cultura que nem sempre nos ajuda a perceber os padrões inconscientes nos quais atuamos, e reagir imediatamente a um sentimento que é despertado em nós pela ação do outro é algo não apenas aceito, mas até mesmo esperado. Nos libertar desse conceito de culpa e nos conectarmos com o conceito de que a responsabilidade da autonomia de nossas ações é unicamente nossa, é o caminho que tenho tentado adotar. Ou seja: não é com você, é comigo. 🙂

Créditos da imagem de destaque: escultura Love, do artista ucraniano Alexander Milov para o Burning Man.


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