Desde que vi um banner pop up de anúncio do BOL na década de 90 eu decidi que queria ser publicitária e trabalhar com publicidade na internet. Nessa época não existia nem o nome Marketing Digital nem um curso de graduação pra isso (e parece que não andou muito desde então, não conheço ainda graduação em marketing digital e estamos quase 20 anos depois). Ando pensando com muito carinho sobre carreira, profissões e mercado de trabalho, e inspirada por vários pedidos em um grupo no Facebook resolvi contar um  pouco sobre a minha experiência com a profissão e o curso que escolhi fazer.

Homenagem da RPC do Paraná aos publicitários

Como é a faculdade de Publicidade e Propaganda?

Eu lá nos meus 16 anos de idade comecei a pesquisar sobre marketing e comunicação para entender qual curso deveria fazer. Sempre me identifiquei mais com marketing do que só com comunicação (já explico a diferença) mas não achei em BH na época um curso que me atendesse. Os cursos de marketing eram cursos de Administração com ênfase em Marketing (e eu não queria cursar administração) e o que achei de mais parecido com o que eu queria era o curso de Publicidade e Propaganda, que é na verdade uma especialização do bacharelado de Comunicação Social. Quando você se forma publicitária, é na verdade bacharel em Comunicação Social (que tem outras especializações, como Jornalismo e Relações Públicas). Qual a diferença entre Marketing e Comunicação?

Administração com ênfase em Marketing

É um curso de administração, como o nome diz. Assim como Comunicação Social, é um curso genérico que te permite uma ampla gama de profissões. Não raro que pessoas que não sabem  direito ainda a resposta pra pergunta “o que você quer ser quando crescer” cursem administração. No caso da ênfase em Marketing significa que você terá matérias mais específicas para essa especialidade. Ser um profissional de marketing quer dizer aprender como fazer com que um negócio venda. Todo negócio vende produtos ou serviços que precisam ter uma estratégia de marketing, ou seja: como pensar preço, praça, produto e promoção (os famosos 4p’s de marketing do teórico Philip  Kotler, uma das principais referências no assunto).

Comunicação Social – Publicidade e Propaganda

O P de promoção dos 4 P’a de marketing de Kotler se refere à Comunicação, à propaganda. Todas as estratégias para fazer com o cliente descubra a empresa, o produto, o serviço e se sinta estimulado a fechar negócio (lembre-se: publicidade não vende, estimula a compra pois a decisão é do cliente – são duas coisas bem diferentes uma da outra. Quem vende é o setor comercial). A grade curricular de matérias do curso de publicidade e propaganda muda bastante de uma faculdade para outra, então é melhor pesquisar diretamente nos sites das faculdades que você pretende se aplicar. Num geral englobam matérias teóricas dem comunicação, filosofia, sociologia, psicologia, entre outras disciplinas da área de ciências humanas, e algumas da área de ciências sociais aplicadas como economia, estatística, marketing, entre outras. E também contempla as matérias específicas sobre muitas diferentes áreas da publicidade, como design, arte, produção gráfica, digital, criação publicitária e mídia.

Como é o mercado de publicidade e propaganda?

Podemos dizer que o mercado em geral se organiza em quatro diferentes grandes ramos de atuação:

  • Clientes

Quem demanda o trabalho publicitário. Geralmente as médias e grandes empresas possuem um setor de Marketing e Comunicação, que é quem planeja e gerencia as demandas para outras empresas ou setores a execução das diferentes estratégias de comunicação e marketing. É possível trabalhar como publicitário nesses setores, e algumas empresas preferem ainda montar uma agência interna: a house agency. Os profissionais que trabalham em empresas geralmente possuem uma formação mais voltada par o marketing, planejamento e gerenciamento de projetos, exceto quando é uma house, que funciona tal qual uma agência de publicidade.

  • Agências de publicidade

Trabalhar em agências é extremamente glamurizado, entretanto a vida de agência não tem nada de glamour, mas deixo isso pra parte de vantagens e desvantagens da profissão. Quem sonhava desde pequeno a criar comerciais de TV e revista é quem geralmente se sente mais atraído por esse tipo de empresa para trabalhar. Séries como Mad Men mostram mais ou menos como é essa vida (não mudou muito desde aquela época, acredite. Só botaram computadores no processo).

Como uma agência de publicidade parece

Imagem da série Mad Men, da AMC

Uma agência “tradicional” geralmente tem os departamentos abaixo, que necessitam cada uma delas de muito aprendizado extra-faculdade para que você seja capaz de exercer realmente a função em cada um desses setores:

  • Atendimento publicitário (ou Executivo de contas, ou gerente de projetos)
  • Planejamento de campanha
  • Criação
    • Redator Publicitário
    • Diretor de Arte
    • Designer
    • Arte Finalista
  • Mídia
  • Produção RTVC
  • Produção Gráfica

O mercado de publicidade, como tantos outros está sofrendo o impacto da revolução digital, então surgiu um outro tipo de agência: a digital. Há agências grandes que possuem departamentos inteiros dentro dela que funcionam como uma agência dentro de uma agência, já que os conhecimentos específicos necessários para os profissionais que atuam em “mídias tradicionais” e “mídias digitais” é muito diferente um do outro. Eu tive oportunidade de trabalhar em todos os tipos. Numa agência digital os papéis e função mudam um pouco:

  • Atendimento publicitário (ou Executivo de contas, ou gerente de projetos)
  • Planejamento de campanha
  • Criação
    • Redator Web
    • Web Designer
    • Programador
    • Social Media
  • Mídia Online

As agências geralmente são remuneradas pelos maiores clientes num esquema de fee mensal, ou seja, pagam uma mensalidade de um contrato que define os serviços que a agência presta para esse cliente. Uma agência pode também ser contratada para projetos pontuais.

Produtoras

Estúdios de fotografia, estúdios de áudio e vídeo, produtoras de animação, gráficas, entre outras empresass que executam o que foi planejado e criado pelas agências de publicidade. Geralmente são contratadas via agência, ou seja, o cliente contrata a agência para fazer a campanha, a agência planeja e cria, as produtoras são subcontratadas para produzir partes específicas do processo. A agência é geralmente responsável por encontrar as empresas e profissionais mais adequados para o tipo de trabalho e orça a produção da campanha com pelo menos três fornecedores de cada serviço específico necessário para executar o projeto e aprova com o cliente esses valores, que são pagos por ele (não está incluso no fee mensal da agência, cada campanha tem um custo específico de produção, que geralmente é cerca de 20% a 30% do valor da verba da campanha).

Veículos

Veiculam os anúncios publicitários. Jornais, Revistas, empresas de TV, empresas de mídia exterior (outdoor, abrigos de ônibus e relógios, mídia out of home). São empresas que sobrevivem das verbas publicitárias, que geramente são cerca de 70% a 80% da verba da campanha. Além do fee mensal que o cliente paga à agência, geralmente o veículo repassa até 20% do valor dessa verba à agência (isso deve ser acordado com o cliente em contrato), a chamada remuneração de mídia. Os veículos digitais (como Google e Facebook) não pagam remuneração de mídia pra agências, o que explica que donos de agências “tradicionais” não estavam lá muito preocupados com a internet, até que essa veio e engoliu o mercado, como fez com tantos outros.

Vantagens e Desvantagens de ser publicitário

Me graduei em Publicidade e Propaganda em 2008 e trabalhei no mercado de Belo Horizonte, que está entre os maiores do país (em ordem são São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba e BH – esses três últimos trocam de lugar com frequência). Trabalhei em uma agência média, especializada em branding (uma disciplina de marketing) em que implementei a integração com o digital, depois no marketing de um grande grupo de mídia – o grupo Diários Associados, dono da TV alterosa e do jornal Estado de Minas, depois em uma startup (um cliente) e por último novamente na área digital de uma grande agência de BH, que atendia principalmente contas do governo. Acabei por experimentar as quatro grandes áreas do mercado de publicidade, já que tive grandes clientes de varejo – L’acqua di Fiori e Vilma Alimentos – que faziam campanhas grandes em que envolviam muitas produtoras. Foram 7 anos nesse mercado, aprendi coisas incríveis, trabalhei com pessoas maravilhosas (e outras nem tanto), tive muitas portas da vida abertas por estar em uma profissão que nos dá acesso a muitos tipos de conhecimentos diferentes. Decidi sair do mercado em 2015, tirei um ano sabático de aprendizado no UnCollege e hoje tenho meu negócio, uma escola de cursos livres.

Claro que todas as profissões tem vantagens e desvantagens, e gostei muito do tempo que atuei como publicitária, mas me re-descobri professora. Hoje estou em vias de começar um mestrado e já dou aula em três pós graduações. Consegui realizar meu sonho de adolescente, trabalhar com publicidade para a internet, e é essa hoje ainda a área de conhecimento que me sustenta, já que meus cursos de maior sucesso são de Marketing Digital e de Mídias Sociais. E lembro que essas vantagens e desvantagens foram escritas com base na minha experiência no mercado de BH, pode ser que tenham outras pessoas, ou outros mercados que tenham uma experiência diferente.

Vantagens de ser publicitária

  • Possibilidade de aprender algo novo todos os dias. Para ser publicitário você precisa ser apaixonado por aprender, é impossível parar de estudar, independente da função que você exerça. É uma área que muda muito, muito rápido e exige constante atualização. Eu amo isso, então acho que foi uma das coisas que me atraiu na profissão.
  • Contato com o admirável mundo novo. É uma área que está em contato direto com o futuro, o tempo todo estamos pesquisando tendências e entendendo para onde o mundo está indo. tecnologia, negócios, economia, política, enfim, todas as áreas de poder que mudam o mundo precisam ser entendidas para sermos capazes de comunicar adequadamente com o público.
  • Quando se trabalha em agências e veículos costuma-se ganhar muitos brindes, participar de festas, ganhar ingressos de eventos, entre outras facilidades gostosas quando temos vinte e poucos anos.
  • Trabalhar com gente criativa, inteligente, descolada, cabeça aberta, e geralmente essa galera está em agências.
  • Ambientes de trabalho menos formais, principalmente em agências.

Desvantagens de ser publicitária

  • É um mercado geralmente muito mal remunerado. Tem sim poucos sortudos ultra competentes que trabalham em grandes agências em grandes mercados ganhando mais de 10k por mês, depois de uns 10 anos de profissão. Mas mais de 90% dos profissionais ganham muito menos do que merecem e dificilmente você realmente sobe ladeira.
  • É um mercado que além de pagar mal, paga informalmente. Acordos de X na carteira e Y “por fora” é prática comum. É comum também “freelancer fixo”, ou seja, você é um empregado sem os direitos de um empregado. Gente sendo MEI e tendo que agir como empregado, gente “comprando nota” pra conseguir receber. Não é um mercado que valoriza seus profissionais, num geral. Sempre há exceções, mas a maioria infelizmente não é bacana. Isso é mais comum em produtoras e agências, em veículos e clientes costuma ser menor.
  • Se for pra trabalhar em agência, esqueça ter vida fora da agência. Existe uma noção muito distorcida de urgência em  publicidade. Cliente diz que campanha X é urgente, pessoas na agência viram noite, pra depois demorar mais de uma semana pra aprovar a campanha. De novo, sempre há exceções, eu tive sorte que trabalhei em agências bem  organizadas nesse sentido e não era da criação, então sofri menos com noites viradas e trabalhos em fim de semana, mas ainda assim tive minha cota.
  • Ego. Ego em todos os lugares. Num geral as pessoas tem baixa autoestima e isso significa egos grandes, então tem muita gente muito difícil de lidar.  Eu cheguei a ter um diretor de criação que fez um inferno na criação da agência durante alguns meses, até que o dono da agência descobrisse quem ele realmente era e mandasse ele embora. Cheguei a ter uma chefe que estava sofrendo processos por assédio no trabalho, pessoas saíam chorando da sala dela, tal a humilhação que sofriam.
  • É uma profissão que tem data de validade. É bom enquanto dura, mas depois de 7, 10, 15 anos de profissão, as pessoas vão abrir seus próprios negócios ou mudam de área, dados os problemas já apresentados acima. Além disso passar dos 30 significa ter suas chances de trabalho diminuídas. Passar dos 40 só se tiver virado diretor de criação, de atendimento, de mídia ou similar. Depois dos 50 só fica quem vira dono de agência. De novo, sempre há exceções, mas essa costuma ser a regra. De novo clientes e veículos são exceção nesse caso.
  • É uma profisão machista, como muitas outras. Essa campanha feita por uma agência de João Pessoa mostra isso bem.

E lembro sempre: não é necessário diploma para se exercer função de publicitário. Só é necessário conhecimento, portanto você pode pegar os mesmos R$50 mil que gastaria numa faculdade particular, comprar vários cursos da Perestroika e de outras escolas como a minha, viajar o mundo por um ano, desenvolver seu próprio programa de autoaprendizado na multiversidade, fazer cursos online e trabalho voluntário para ganhar experiência, criar seus projetos e fazer um portifolio foda, que é bem possível que você seja um melhor profissional que alguém que passou por uma faculdade. É necessário foco e disciplina pra aprender desse jeito que descrevi, e como esse não é o caso de muita gente que trabalha em publicidade, a faculdade pode te ajudar nisso. Mas não é obrigatória, e com certeza absoluta nenhuma faculdade, por melhor que seja, vai te preparar totalmente para a função que você vai exercer. Você ainda vai precisar viajar e fazer cursos por fora. Mas fazer uma faculdade vai te dar networking, muitos empregos que consegui foram indicações de ex-colegas de faculdade.

Tem dúvidas? Sugestões? Correções? Deixa nos comentários. 🙂

 

Categorias: Inspiração

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