Tá rolando aí uma polêmica sobre pessoas sugerindo que não se deveria fazer ENEM ou entrar pra uma faculdade. Sou professora de pós graduação, já dei aula em graduação também, nas melhores universidades privadas aqui de BH. Tenho 34 anos e um currículo de dar inveja em muito marmanjo. Graças a uma resiliência fora da curva e várias oportunidades que me foram dadas ao longo da vida. Então tenho meus 2 centavos pra dizer sobre essa bagaça toda.

Eu tenho um bazilhão de críticas ao sistema escolar. Um monte mesmo. Estudei o ensino básico e o médio em escolas públicas, extremamente deficitárias no ensino de matemática e outras ciências exatas. Concorri com alunos de renomadas escolas particulares ao tentar entrar no CEFET pra fazer ensino técnico, sonho de salário melhor pra quem não tem muitas outras oportunidades na vida, e não passei. Meus pais, um semi-analfabeto que trabalhou duríssimo a vida toda como comerciante. Minha mãe, costureira, cabelereira, dona de casa, enfermeira informal, terminou o primeiro grau depois dos 50 anos estudando à noite.

Mas desde sempre, desde que eu era crianca e quis desistir de estudar com cerca de 12 anos de idade quando tirei minha primeira nota abaixo da média em matemática, minha mãe me ensinou algo extremamente valioso: estude muito, para que você nunca tenha que depender de homem na vida. Minha mãe, dependente financeiramente a vida toda, sabe a posição de fragilidade que a falta de recursos financeiros impõe. Meu pai me deu tudo o que pôde, mas faliu quando eu era pré-adolescente e ficamos com uma aposentadoria de menos de 500 reais por mês durante boa parte da minha adolescência. Dava pra comida, graças a Deus. Não muito mais do que isso.

Mas eu tive sorte, muita sorte. De ter dois pais que me amam infinitamente, que sempre respeitaram minhas decisões e escolhas,  mesmo que não as entendessem, na maior parte das vezes. Que fizeram toda sorte de sacrifícios para me proporcionar estudos e condições mínimas de boa sobrevivência. Meu pai vendeu uma cova de cemitério que ele tinha para me dar meu primeiro computador, aos 16 anos de idade, em 99. Eu fiz parte dos 3% da população brasileira que teve acesso à internet nos anos noventa.

Isso mudou meu mundo. Aprendi HTML sozinha depois da meia noite na conexão discada para fazer um site. Tive um site com amigos sobre entretenimento na época que blogs mal existiam. Vi meus amigos entrando na faculdade aos 17 e eu ficando pra trás, porque na época não existia enem e o vestibular da federal era muito difícil, 35 alunos por vaga pra estudar comunicação social. Eu não passei. 4 vezes. Só entrei na faculdade aos 21, pagando do meu bolso, do primeiro emprego  que consegui. Juntava dois meses de salário para pagar uma mensalidade da faculdade.

Aí surgiu o ENEM. E com ele o PROUNI. Fiz, consegui nota alta e finalmente estudei os outros três anos da minha faculdade com PROUNI, 100%. Só quando saí da faculdade, com emprego já garantido oferecido por um professor, na agência de publicidade dele, é que comecei a ter acesso a mais privilégios. De conviver com pessoas que tinham recursos, de enxergar que o mundo é cheio de possibilidades e ficar bem esperta para aproveitar todas que eu pudesse. De fazer milhões de projetos paralelos pra aprender muito. Entrei no Couchsurfing, comecei a conhecer gente do mundo todo, expandir meus horizontes conversando com gente de outras culturas. Graças ao inglês que minha mãe pagou pra mim, com o salário mínimo dela, quando eu tinha 18.

Vivemos uma revolução digital tão incrivelmente fudida e maravilhosa ao mesmo tempo que é difícil acompanhar. Hoje, professora dos meus cursos próprios, há um ano ensinando quase 300 pessoas a fazer marketing digital para pequenas empresas, ensinando em três pós graduações renomadas na cidade, vejo o quanto muita gente ainda não entendeu o que eu tive oportunidade de aprender aos meus 16, lendo tutorial de HTML: construir sua carreira, sua vida, só depende de você. Ela pode ser do tamanho  que você quiser, tem como achar oportunidades na vida sim. Claro que pra mim, e pra outras pessoas em situações muito menos privilegiadas do que a minha é muito, muito difícil. Mas é possível. E sim, faça milhões de projetos paralelos que você ama, como todos esses que eu fiz. Isso abre seus horizontes de maneira que não tem faculdade no mundo que é capaz e fazer.

Mas a universidade ainda é a grande primeira porta de oportunidades nessa vida, especialmente para quem não tem esses privilégios de outra maneira. O sistema é falho, deficiente, ineficiente,  paga mal professores (e agora terceiriza-os, nunca vi terceirizar core business funcionar, mas né), é num modelo prussiano industrial extremamente ultrapassado. Precisa de mudanças pra ontem sim. Mas é nela, é com os professores, com os colegas de faculdade, com os grêmios, AIESECS, e toda sorte de outras portas que a universidade que você, jovem com menos privilégios, vai deslanchar nessa vida. Mas entenda que só a universidade não vai te dar tudo que você precisa. Então assim que rolar, que der, voluntarie, faça contatos, participe sim de projetos, abra sua mente, aprenda programação, aprenda inglês, as duas grandes chaves de oportunidades nesse mundo. Use o que existe disponível, a algumas teclas de distância, para ser sua alavanca, seu estilingue nesse mundo. Bem disse Emicida:

“Irmão, você não percebeu
Que você é o único representante
Do seu sonho na face da terra
Se isso não fizer você correr, chapa
Eu não sei o que vai”

Categorias: Inspiração

2 Comentários

Ana · 7 de dezembro de 2017 às 08:44

Ana, eu gosto muito dos seus textos e das suas histórias inspiradoras. Mesmo de longe, tento te acompanhar um pouquinho. E concordo com você. Nosso sistema educacional precisa ser revisto pra ontem, mas enquanto isso não acontece, precisamos trabalhar com o que temos.

    Ana Paula Coelho · 8 de dezembro de 2017 às 10:04

    Total, Xará! A mudança quase nunca vem de dentro das grandes instituições, mas de projetos disruptivos. Ainda assim acho fundamental a gente fazer o melhor com o sistema que temos, antes que ele imploda e dê espaço para um novo modelo. 🙂

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